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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Observatório de Euclides

Programa da TV Brasil tem especial sobre Euclides

Observatório da imprensa teve o escritor em foco, com a presença da professora Walnice Nogueira Galvão

Os vídeos na íntegra do programa podem ser vistos aqui.

Em 15 de agosto de 1909, uma notícia comoveu a opinião pública. Em uma troca de tiros com o amante de sua esposa, morria Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, considerado por especialistas como o grande épico da literatura brasileira. O crime ocupou as manchetes dos jornais durante semanas e ainda hoje é lembrado como "A tragédia da Piedade", bairro carioca onde ocorreu. O Observatório da Imprensa de terça-feira (11/08), excepcionalmente gravado, homenageou o intelectual que eternizou a Guerra de Canudos, um momento crucial para a imprensa brasileira. Como correspondente de O Estado de S.Paulo, Euclides cobriu a primeira guerra moderna no Brasil, que contou com inovações como o telégrafo, o trem e o jornal.

O jornalista Alberto Dines entrevistou a professora doutora Walnice Nogueira Galvão, autora de 11 livros sobre o escritor; o jornalista e escritor Roberto Pompeu de Toledo, autor de artigos sobre Canudos; o jornalista Daniel Piza, de O Estado de S.Paulo, que refez a viagem realizada pelo escritor pelo Rio Purus, na Amazônia, para demarcar as fronteiras entre Brasil e Peru e o euclidianista José Márcio Lauria. "O centenário da morte de Euclides da Cunha traz de volta o massacre de Canudos, descrito magistralmente em Os Sertões, livro que começa como uma série de despachos para O Estado de S. Paulo e torna-se um clássico – primeira visão do Brasil profundo. Um ‘novo jornalismo’ que combina reportagem de campo e ciência", disse Dines no editorial que abre o programa.

Um homem obstinado

Republicano convicto, Euclides da Cunha protagonizou em 1888 uma polêmica que marcou a sua trajetória. Aluno da Escola Militar, no Rio de Janeiro, onde estudava Engenharia, o jovem cadete defendia o direito de os militares exprimirem suas opiniões políticas. Impedidos de comparecer a um evento republicano, os alunos combinam um protesto para o momento da revista da tropa. Ao sinal, todos deveriam partir seu sabre-baioneta nos joelhos. Mas somente Euclides cumpriu o prometido. Após tentar em vão quebrar a arma, o cadete a atira no chão, aos pés do ministro da Guerra.

Para evitar que o cadete fosse transformado em mártir pelo movimento republicano, Euclides foi poupado do enforcamento previsto no Código Militar para casos graves de insubordinação. Mas, em seguida, foi desligado do Exército sob o pretexto de "incapacidade física". O assunto repercutiu na imprensa e no parlamento, foi tema de colunas em diversos jornais, e rendeu ao jovem um convite para escrever em A Província de S.Paulo, jornal que defendia a mudança de regime de governo. Tem início a amizade entre Euclides da Cunha e o diretor do jornal, Júlio Mesquita, que durou décadas.

Seus artigos – inicialmente publicados sob pseudônimo - pediam uma revolução política. Após a Proclamação da República, com apoio do ex-professor Benjamin Constant, então ministro da Guerra, Euclides foi reincorporado ao Exército. Formou-se Engenheiro Militar em 1892, mas quatro anos depois, pediu reforma. "Ele começa a fazer muitas críticas ao que se passa no panorama da República. Inclusive quanto à corrupção que existe muito no início do novo regime. E, principalmente, quanto à perda dos ideais republicanos. Você começa a perceber nas cartas o início de uma decisão, que vai demorar um pouco, de sair do Exército, por causa disso. Por causa da desilusão com a República", explicou Walnice Galvão.

A guerra eternizada

Em 1896, logo após a Proclamação da República, explodiu no sertão da Bahia a Guerra de Canudos. Comandados pelo líder religioso Antônio Conselheiro, beatos, jagunços e ex-escravos organizaram um movimento messiânico que rejeitava as mudanças que o novo regime provocara nos poderes da Igreja. Taxado de "restaurador do trono", foi severamente criticado. "Euclides começa a se interessar por Canudos em um artigo que escreve para O Estado de S.Paulo chamado ‘A nossa Vendéa’", explicou Roberto Pompeu de Toledo. O texto comparava o conflito com a Revolução Francesa e afirmava que os "revolucionários" eram contra o regime republicano. "Ele está contaminado por aquele pensamento da elite brasileira de que ali havia uma trincheira de malfeitores que estavam conspirando contra o regime", disse.

A pedido de Euclides, Júlio Mesquita solicitou ao ministro da Guerra que o escritor participasse da comitiva como adido militar, um privilégio que os demais correspondentes não desfrutavam. O escritor chegou à Bahia pouco antes do final do conflito, mas ainda a tempo de presenciar as últimas batalhas. Ao todo, O Estado de S.Paulo publicou 34 artigos e 57 despachos telegráficos sobre o conflito. Na sede do arquivo do jornal, Dines leu um trecho do primeiro telegrama enviado pelo correspondente: "‘Afirmam as testemunhas um fato que eu já previra. Quatro ou seis jagunços faziam estacar, perturbado, um batalhão inteiro’".

A Guerra de Canudos é um episódio crucial na imprensa brasileira. "É o primeiro momento em que os jornais mandam enviados especiais para cobrir um evento que está galvanizando a população. Não é à toa, isso é proporcionado por um avanço tecnológico que é o telégrafo. O telégrafo chega até Monte Santo e possibilita que os correspondentes mandem as suas matérias para os seus órgãos. Mas até então é uma meia dúzia, talvez um pouco mais, de enviados dos jornais, naturalmente fazendo uma cobertura parecida com aquilo que nos EUA se chama de embeded, incorporados ao Exército. Muitos deles até faziam parte, tinha essa duplicidade", explicou Roberto Pompeu de Toledo.

Toda a cobertura era censurada. O Exército, que instalara o telégrafo, revisava as reportagens antes de enviar aos órgãos de comunicação. O correspondente do Jornal do Commercio, Manuel Benício, foi afastado da função por ser "incômodo", conforme explicou Roberto Pompeu de Toledo. "Era uma cobertura melhor, mais viva, mais corajosa que a de Euclides", avaliou. "É muito diferente o Euclides jornalista. Até dá a impressão de que ele estava escondendo a bala, o estoque, a munição dele para o livro. Realmente o livro é uma coisa esplendorosa, é um grande momento da literatura brasileira".

Jornalista ou escritor?


Dines questionou se Euclides da Cunha era "um jornalista ou um escritor que escrevia em jornal". Walnice Galvão explicou que no início do século 20 era comum que intelectuais e profissionais de diversas áreas – como Direito e Medicina – escrevessem artigos em jornais. Estas colaborações tornavam o nível das publicações "altíssimo". Roberto Pompeu de Toledo acrescentou que o conceito de jornalista era diferente do adotado atualmente.

"Não existia um profissional tal qual nós o entendemos hoje. Euclides era muita coisa. Era engenheiro, era militar, geólogo amador, sociólogo amador, ele era tudo. E, evidentemente, colaborou muito com a imprensa. Aliás, não só colaborou, ele trabalhou. Ele era redator de O Estado de S.Paulo numa certa fase da vida dele, às vésperas de ser enviado para Canudos. Então, houve períodos em que ele parecia um pouco esse jornalista profissional que nós somos hoje. Agora, eu não diria que a produção dele é uma produção jornalística, especialmente quando estamos falando de Os Sertões", disse Roberto Pompeu de Toledo.

Daniel Piza avaliou que Euclides da Cunha mescla jornalismo e literatura na cobertura da Guerra. "A gente vê claramente que ele é um escritor, um homem de letras indo a um local para testemunhar um fato. Ao mesmo tempo ele é um repórter na essência porque ele chega como alguém que tem que fazer despachos para um jornal, tem que apurar as informações. E faz esse trabalho muito bem a tal ponto que ele chega a Canudos com uma carga de preconceitos e de visões pré-estabelecidas e vai abrindo mão daquilo porque os fatos o obrigam. Então, nesse aspecto, ele é sim um pioneiro do jornalismo moderno e acho que tem essa coisa de ser ‘o novo jornalista’ porque o estilo dele não é só o estilo que traz informações, mas que também te faz se sentir no ambiente com recursos literários."

De vilões a heróis

Ao retornar de Canudos, o escritor tem uma outra visão do conflito. Walnice Galvão explicou que Euclides da Cunha cultiva uma atitude dúbia em relação ao Conselheiro em Os Sertões. "Ele diz, às vezes, que era um homem genial e, outras vezes, que é um bufão, um louco falando sozinho. Ele tem as duas coisas misturadas", contou. "Mas ele foi ganho pela admiração que teve pelos canudenses. Ele foi pra lá e viu que eles lutavam até a morte pela suas convicções, pelos seus princípios. Ele ficou muito mal. Ele sai dois dias antes do fim da guerra e fica ruminando aquele livro. Fica cinco anos escrevendo, estudando, porque aquele livro precisa de muito estudo pra ser escrito. Ele já escreve com a convicção de que está escrevendo o ‘livro vingador’, que é como ele chama o livro em diversas ocasiões. E foi uma reviravolta muito penosa", avaliou.

O Observatório foi a São José do Rio Pardo, cidade paulista na qual Euclides da Cunha escreveu parte de Os Sertões e onde hoje descansam seus restos mortais. Engenheiro de Obras Públicas de São Paulo, Euclides foi designado para reconstruir uma ponte metálica destruída em uma enchente. "Quando ele chegou, já havia boa parte - especialmente de ‘A Terra’ - em estado de publicação. Ele retocou, editou, a parte de ‘O Homem’ e ‘A Luta’. O essencial da presença de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo foi ter dado a fórmula definitiva ao Os Sertões", explicou Márcio Lauria. Dines mostrou aos telespectadores a cabana de zinco e sarrafos à beira do rio que servia de escritório durante o período.

"É um livro da perplexidade do encontro de um Brasil com um outro Brasil. De um Brasil que o Euclides chama de ‘o Brasil do litoral’, que encontrou o ‘Brasil do sertão’. Um encontro de um Brasil urbano, conectado com o mundo, com um Brasil que ficou pra trás, atrasado. E esse choque é exposto como pano de fundo a uma guerra muito simbólica, muito emblemática, e muito rica em detalhes, nas suas evoluções, nos seus episódios", disse Roberto Pompeu de Toledo.

Após o sertão, a selva

Em 1904 Euclides da Cunha se candidatou para uma nova aventura. Por interferência do Barão do Rio Branco foi escolhido para chefiar a comissão de demarcação das fronteiras entre Brasil e Peru. Uma viagem de cerca de um ano na floresta amazônica. "Euclides tinha o espírito muito extremista, isso é muito simpático nele, ele era muito aventuresco, ele não se acomodava em nada, ele queria outra aventura. Não contente em ter ido à Guerra de Canudos, que não era pouco, não contente em já ser um homem importantíssimo - membro da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, autor conhecido no Brasil inteiro – ele cismou que queria ir pra Comissão de Reconhecimento do Alto Purus", relembrou Walnice Nogueira.

Daniel Piza explicou que durante a longa e atribulada viagem pela Amazônia, Euclides viu o conflito entre o homem e a natureza. "Assim como os sertanejos, que ele diz que eram ‘fortes’ para resistir ao meio hostil, ele viu mesmo com os seringueiros, com os caboclos daquela região do Acre que eram ‘fortes’ também porque eram nômades e tinham que se acostumar a uma natureza bastante adversa. Em uma tão importante frase quanto ‘o sertanejo é antes de tudo um forte’, ele definiu da seguinte forma: ‘o seringueiro trabalha para escravizar-se. Então, ele captou que era um regime de trabalho muito perto da escravidão e disse que só teria jeito a Amazônia se você começasse mudando as relações trabalhistas’", contou.

A tragédia pessoal que abalou o país

Ao retornar da expedição, Euclides encontra sua mulher, D. Saninha, grávida. Há alguns meses, ela mantinha uma relação extraconjugal com o jovem cadete Dilermando de Assis. "O casamento era um desastre. Há inúmeras testemunhas e todo mundo sabia que aquele casamento não tinha dado certo, era da mais absoluta incompatibilidade", contou Walnice Galvão.

"D. Saninha jurava que ia romper com o Dilermando e que aquilo não iria adiante, mas ela não conseguia. Era uma paixão, realmente, de parte a parte. Até que então, um dia, não se sabe direito a circunstância, mas sabe-se que ela pegou os filhos, menos o mais velho, que já estava na Escola Militar, e foi embora. Fugiu de casa e foi para casa do Dilermando, no bairro da Piedade", relembrou.

No chuvoso domingo no qual ocorreu a tragédia, Euclides invadiu a casa de Dilermando com revólver em punho. Assim que o cadete surgiu na sala, atirou contra ele, mas o Dilermando era campeão de tiro. Apesar de atingido, reagiu e matou o escritor com dois disparos. A notícia correu a cidade e estampou as manchetes dos jornais. Enquanto a imprensa paulista mantinha discrição, a carioca explorava o crime. "No Rio, os jornais se divertiram com o que houve", disse Walnice.

Dois anos depois, o cadete foi julgado e absolvido por legítima defesa. "O Brasil inteiro queria que ele fosse guilhotinado, mas não conseguiram. Eu publiquei os Autos do processo, não tinha jeito de dizer que não era legítima defesa porque era. Alguém invade a sua casa dando tiro, você se defende. Houve apelação para o Supremo e ele ganhou outra vez", disse a professora. Imediatamente após sair da cadeia, casa-se com D. Saninha.

Um século depois, a história sem ponto final


"De vez em quando, alguém ressuscitava a história. Faziam entrevista com o Dilermando e ele falava mais do que devia porque tinha muita culpa em cima dele. Há uma frase, que é de um dos jornalistas da época, não se sabe se o jornalista inventou ou se foi o Dilermando que disse: ‘eu cometi o crime de matar um Deus’. Passou o resto da vida execrado, apesar de ter sido absolvido duas vezes", enfatizou Walnice Galvão.

Sete anos após o crime, uma nova tragédia abalou a família. O filho preferido de Euclides, estimulado pela família a buscar vingança pela morte do pai, morre em uma troca de tiros com Dilermando de Assis. "Uma família destroçada pela sucessão de assassinatos e vinganças onde não há vilões e todos são vítimas. Mas a força de suas palavras foi maior. O escritor ficou eternizado como um dos maiores nomes da cultura nacional. E sua grande obra, Os Sertões, gerou um formidável acervo: dezenas de reportagens, livros, trabalhos acadêmicos, curtas e longas-metragens e até uma mini-série de tv. Esta é uma história cujo desfecho ainda não foi escrito", disse Dines.

Matéria extraída e adaptada deste link para o portal IG

O Observatório da imprensa pode ser assistido todas as terças, às 22h40, na TV Brasil (antiga TVE). (veja a lista de canais)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Observatório da Imprensa

O Observatório da Imprensa, da TV Brasil, que vai ao ar no dia 11 de agosto, às 22h40, homenageará o intelectual considerado por especialistas como o grande escritor épico da literatura brasileira, e que eternizou a Guerra de Canudos, Euclides da Cunha. Transformada em notícia no ano de 1897, a Guerra de Canudos representou um momento crucial para a imprensa brasileira, saindo das páginas dos jornais para as obras literárias, para os livros de história, para os cordéis, teses de mestrado e produtos culturais diversos. Como correspondente de O Estado de São Paulo, Euclides cobriu essa primeira guerra moderna no Brasil, que contou com inovações tecnológicas, entre elas o telégrafo.

Para contar a trajetória do escritor, o programa foi a São José do Rio Pardo, cidade paulista onde está a Casa de Cultura Euclides da Cunha. Ali Euclides escreveu parte de Os Sertões. O jornalista Alberto Dines viajou até à cidade e entrevistou o euclidianista Márcio José Lauria.

O Observatório da Imprensa ainda ouviu a professora doutora Walnice Nogueira Galvão, autora de 11 livros sobre Euclides; o jornalista e escritor Roberto Pompeu de Toledo, que escreveu artigos sobre Canudos; e o jornalista de O Estado de São Paulo, Daniel Piza, que refez a viagem realizada pelo escritor pelo Rio Purus, na Amazônia, para demarcar as fronteiras entre Brasil e Peru.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Mesa na Flip

Paraty revela facetas pouco conhecidas de Euclides da Cunha

Especialistas convidados por jornal paulistano integraram mesa 'O Mar e os Sertões'sobre autor

por Antonio Gonçalves Filho*

O escritor, jornalista e engenheiro brasileiro Euclides da Cunha (1866-1909) foi tantos homens em um só que uma vida inteira é insuficiente para conhecer a personalidade multifacetada do autor de Os Sertões, marco na história da literatura brasileira. Neste sábado, 4, na Casa de Cultura de Paraty, penúltimo dia da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), especialistas convidados pelo Jornal O Estado de São Paulo integraram a mesa “O Mar e os Sertões”: a professora de Literatura Walnice Nogueira Galvão, que tem 12 livros publicados sobre o escritor, o professor de Teoria Literária e crítico Francisco Foot Hardman, que organiza um volume com sua poesia completa, o escritor amazonense Milton Hatoum, autor de um conto sobre ele, e o colunista de O Estado, Daniel Piza, que refez recentemente a viagem de Euclides da Cunha pelo Amazonas, subindo o rio Purus, onde o escritor de Cantagalo ajudou a demarcar os limites entre o Brasil e o Peru, em 1905.

A apresentação de aspectos pouco conhecidos da vida de Euclides pareciauma tarefa impossível após a publicação de tantos estudos e ensaios sobre como esse intelectual positivista e conservador mudou de posição após cobrir, para O Estado de São Paulo, a insurreição dos seguidores de Antonio Conselheiro, em Canudos.

Basicamente, o que todos sabem é que Euclides, no ano de 1897, esteve nas imediações do conflito em que o religioso liderou uma massa de deserdados contra o Exército republicano e acabou comovido pelo drama dos retirantes da seca no interior Bahia.

No entanto, a mesa organizada pela editora Laura Greenhalgh, coordenadora de Cultura de O Estado de São Paulo, mesmo jornal para o qual Euclides escreveu suas impressões sobre oconflito, provou que há ainda fatos desconhecidos sobre o autor e muito a estudar a respeito de suas contribuições nos campos literário, geográfico, científico e político.

Os primeiros poemas de Euclides da Cunha, escritos na adolescência, são, por exemplo, praticamente desconhecidos mesmo entre intelectuais. Lendo um deles, produzido em 1904, em que o escritor fala sobre uma mulher em trajes debanho lendo numa praia da Baixada Santista, o professor de Literatura Francisco Foot Hardman destacou um aspecto pouco considerado pelos estudiosos, a sintonia de Euclides com a modernidade literária embrionária, ele, que é invariavelmente associado aos conservadores parnasianos. “Infelizmente, Euclides foi eclipsado pela própriaobra-prima, Os Sertões, que mantém em segundo plano sua produção poética, influenciada pela leitura de Leopardi e Byron, entre outros”, comentou o professor.

Um ano depois desse poema da mulher da praia, em que transfere a sensualidade das ondas do mar para as curvas femininas, Euclides da Cunha partiu para uma expedição na Amazônia, experiência que resultou em sua obra póstuma “À Margem da História”. O jornalista Daniel Piza analisou justamente esse período estudado por ele antes de refazer ele próprio essa viagem em março deste ano.

“Um Paraíso Perdido” seria a sua grande obra sobre a Amazônia, segundo Piza, o encontro definitivo de Euclides com a retórica bíblica do Gênesis num lugar onde o nômade passa como descesse o rio Styx, direto para o inferno. Em outras palavras, ele não tinha uma visão idílica da região. Detestou o calor de Manaus e não teve tempo de “rever sua visão determinista da história”. Diz Piza que ele a viagem não foi uma epifania como a de Canudos, “em que esse positivista viu como o Exército se comportava de maneira mais bárbara que os sebastianistas seguidores de Conselheiro”.

De qualquer modo, o uso de expressões bíblicas misturadas ao jargão do cientista fez de suas observações sobre a Amazônia o anúncio de uma mudança de rota em sua escrita.

A professora Walnice Nogueira Galvão, com toda a sua experiência pedagógica, encantou a platéia que lotou a Casa de Cultura de Paraty, fornecendo informações sobre todos os episódios e expedições mencionados por seus colegas de mesa, entre eles Milton Hatoum, que leu um conto seu extraído de seu mais recente livro, “A Cidade Ilhada”, e classificou a viagem de Euclides pelo Alto Purus como “um salto que definiu sua posição entre dois polos, o da reflexão filosófica e da sinuosidade do escritor de‘Judas Ahsvers’ e seu rigor como engenheiro”.

*de O Estado de S. Paulo

terça-feira, 30 de junho de 2009

Na flip, mesa sobre Euclides

Um encontro de especialistas

Daniel Piza, jornalista de O Estado de São Paulo vai coordenar o debate na festa literária de Paraty

por Ubiratan Brasil*

O centenário da morte do escritor e jornalista Euclides da Cunha (1866-1909) terá um encontro especial na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, entre 1.º e 5 de julho. O autor de Os Sertões, que profetizava "o esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes", será tema de discussão da mesa O Mar e Os Sertões - Euclides da Cunha, 360°, que, a partir das 15h30 do sábado, dia 4, vai reunir os professores Walnice Nogueira Galvão e Francisco Foot Hardman, além de Milton Hatoum, escritor e cronista do Caderno 2. O encontro vai acontecer na Casa de Cultura de Paraty e a mediação será de Daniel Piza, editor executivo do Estado.

O autor de Os Sertões também tem sido lembrado por O Ano de Euclides, um projeto jornalístico, cultural e multimídia do Grupo Estado, iniciado em março e que se estenderá com mais encontros (leia mais abaixo). Publicado em 1902, Os Sertões nasceu da cobertura jornalística de um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira: a ação vitoriosa do exército contra revoltosos instalados na cidade baiana de Canudos. Euclides viajou para o local em 1897, a convite de Julio Mesquita, então diretor do Estado. Outros correspondentes já acompanhavam as infrutíferas tentativas do exército de derrotar os seguidores de Antônio Conselheiro, no interior da Bahia, e Euclides destacava-se como o escolhido natural para representar o jornal: colaborador havia nove anos, publicara, nos dias 14 de março e 17 de julho daquele ano, dois artigos com o título de ‘A Nossa Vendéia’.

São textos em que Euclides não apenas apresenta aspectos físicos daquela região do sertão como também se aventura a dar palpites sobre as dificuldades táticas e estratégicas do levante. No período em que cobriu o fato, Euclides submeteu-se a um verdadeiro rito de passagem: se quando deixou São Paulo estava seguro da natureza monarquista da rebelião em Canudos, o escritor (republicano convicto) foi obrigado a reformular seu julgamento, forçado pelas contingências. E, se tinha a urgência do repórter, acumulou material para a reflexão profunda sobre o fenômeno, que resultaria em Os Sertões.

"É por isso que não gosto de falar sobre a atualidade da obra", comenta Walnice. "Trata-se de um livro difícil, que não é entretenimento e cuja leitura faz o coração bater forte." Professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ela ressalta o aspecto literário da obra. "Euclides utilizou a linguagem com fins estéticos."

Professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, Francisco Foot Hardman acredita que Euclides é um daqueles casos de grande escritor que teve o conjunto de escritos ofuscado pelo brilho da obra-prima. "Acho interessante, então, neste, como em outros eventos, cursos e debates, sempre que possível destacar os outros planos de sua atividade literária, que incluíram o ensaio, o jornalismo político e a crítica literária, a correspondência, a crônica e, last but not least, a poesia", comenta. "Além de Os Sertões, ele publicou mais três livros, dois deles em vida (Contrastes e Confrontos e Peru Versus Bolívia, ambos de 1907) e um póstumo, mas organizado ainda em vida (À Margem da História, 1909). Afora isso, uma obra extensa de artigos, crônicas e poesias, tanto dispersos quanto inéditos. Seria bom para o público de hoje ter uma ideia aproximada de toda essa riqueza e variedade."

Já Milton Hatoum pretende ler um conto de seu livro A Cidade Ilhada (Companhia das Letras), Uma Carta de Bancroft. O texto faz referência a uma carta que revela um sonho (ou pesadelo) do escritor quando estava em Manaus, antes de partir para o Purus. "Uma das questões mais recorrentes na obra de Euclides é a relação entre civilização e barbárie", observa Hatoum. "Ele dizia que a Amazônia era uma ‘terra ignota’, ‘a última página, ainda a escrever-se, do Gênese’, onde o homem travaria uma ‘guerra de mil anos contra o desconhecido’."

Hatoum comenta que a ânsia de conhecimento científico e de exercer uma missão civilizadora é latente no escritor. "Euclides, como bom positivista, acreditava no progresso e na ciência, temas que ele aborda nos ensaios sobre a Amazônia", afirma. "Mas ele sabe que a ‘civilização’ e os ideais republicanos falharam, e são mais bárbaros que os nativos que ele, Euclides, critica. Penso que esses temas são importantes."

Leia in loco
no link abaixo:

*de O Estado de São Paulo

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Alto Purus

Em Viagem pela Amazônia, Jornalista faz documentário sobre passagem de Euclides pela região

Daniel Piza, autor do blog que leva seu nome, pelo jornal O Estado de São Paulo, viajou em expedição pelo rio Purus, no seio da Amazônia, e trilhou o caminho percorrido por Euclides da Cunha no começo de século XX. Registrando o percurso com uma câmera comum, o jornalista e seus apoiadores contruíram um interessante documentário a que chamaram de Um Paraíso Perdido, mesmo título que teria o livro que Euclides não pode escrever acerca de tal viagem pela região. O vídeo está disponível no referido blog, através do seguinte link http://blog.estadao.com.br/blog/piza/?title=title_533&more=1&c=1&tb=1&pb=1.

Em 24 minutos de documentário, Piza relata as condições de vida dos habitantes da região, ainda miserável e hoje totalmente dependente da subsistência e do apoio do Governo Federal, com projetos de assistência social como o Bolsa Família. No fim, as semelhanças entre a Amazônia de 1905 e a de hoje, cerca de cem anos depois, são assustadoramente mais numerosas do que se podia imaginar.