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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Globo Especial Euclides, confira:


O canal Globo News colocou recentemente, no seu site de vídeos, dois impressionantes programas sobre Euclides da Cunha, produzidos com uma qualidade informativa que só o jornalismo da Globo consegue atingir em termos de televisão. Quem quer conhecer mais um pouco sobre Euclides da Cunha e suas obras, ou quem já admira o escritor, deve parar para assistir a essa ode. Os vídeos têm uma edição impecável, contam com entrevistas feitas em locações especiais e primam por explicar, de uma maneira não linear, mas temática, as minúcias da vida de Euclides. Prepare uma cadeira confortável em frente ao seu PC e bom mergulho!

Vídeos GLOBO NEWS:


Parte 1, com cerca de 50 minutos


Parte 2, com cerca de 25 minutos

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Observatório de Euclides

Programa da TV Brasil tem especial sobre Euclides

Observatório da imprensa teve o escritor em foco, com a presença da professora Walnice Nogueira Galvão

Os vídeos na íntegra do programa podem ser vistos aqui.

Em 15 de agosto de 1909, uma notícia comoveu a opinião pública. Em uma troca de tiros com o amante de sua esposa, morria Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, considerado por especialistas como o grande épico da literatura brasileira. O crime ocupou as manchetes dos jornais durante semanas e ainda hoje é lembrado como "A tragédia da Piedade", bairro carioca onde ocorreu. O Observatório da Imprensa de terça-feira (11/08), excepcionalmente gravado, homenageou o intelectual que eternizou a Guerra de Canudos, um momento crucial para a imprensa brasileira. Como correspondente de O Estado de S.Paulo, Euclides cobriu a primeira guerra moderna no Brasil, que contou com inovações como o telégrafo, o trem e o jornal.

O jornalista Alberto Dines entrevistou a professora doutora Walnice Nogueira Galvão, autora de 11 livros sobre o escritor; o jornalista e escritor Roberto Pompeu de Toledo, autor de artigos sobre Canudos; o jornalista Daniel Piza, de O Estado de S.Paulo, que refez a viagem realizada pelo escritor pelo Rio Purus, na Amazônia, para demarcar as fronteiras entre Brasil e Peru e o euclidianista José Márcio Lauria. "O centenário da morte de Euclides da Cunha traz de volta o massacre de Canudos, descrito magistralmente em Os Sertões, livro que começa como uma série de despachos para O Estado de S. Paulo e torna-se um clássico – primeira visão do Brasil profundo. Um ‘novo jornalismo’ que combina reportagem de campo e ciência", disse Dines no editorial que abre o programa.

Um homem obstinado

Republicano convicto, Euclides da Cunha protagonizou em 1888 uma polêmica que marcou a sua trajetória. Aluno da Escola Militar, no Rio de Janeiro, onde estudava Engenharia, o jovem cadete defendia o direito de os militares exprimirem suas opiniões políticas. Impedidos de comparecer a um evento republicano, os alunos combinam um protesto para o momento da revista da tropa. Ao sinal, todos deveriam partir seu sabre-baioneta nos joelhos. Mas somente Euclides cumpriu o prometido. Após tentar em vão quebrar a arma, o cadete a atira no chão, aos pés do ministro da Guerra.

Para evitar que o cadete fosse transformado em mártir pelo movimento republicano, Euclides foi poupado do enforcamento previsto no Código Militar para casos graves de insubordinação. Mas, em seguida, foi desligado do Exército sob o pretexto de "incapacidade física". O assunto repercutiu na imprensa e no parlamento, foi tema de colunas em diversos jornais, e rendeu ao jovem um convite para escrever em A Província de S.Paulo, jornal que defendia a mudança de regime de governo. Tem início a amizade entre Euclides da Cunha e o diretor do jornal, Júlio Mesquita, que durou décadas.

Seus artigos – inicialmente publicados sob pseudônimo - pediam uma revolução política. Após a Proclamação da República, com apoio do ex-professor Benjamin Constant, então ministro da Guerra, Euclides foi reincorporado ao Exército. Formou-se Engenheiro Militar em 1892, mas quatro anos depois, pediu reforma. "Ele começa a fazer muitas críticas ao que se passa no panorama da República. Inclusive quanto à corrupção que existe muito no início do novo regime. E, principalmente, quanto à perda dos ideais republicanos. Você começa a perceber nas cartas o início de uma decisão, que vai demorar um pouco, de sair do Exército, por causa disso. Por causa da desilusão com a República", explicou Walnice Galvão.

A guerra eternizada

Em 1896, logo após a Proclamação da República, explodiu no sertão da Bahia a Guerra de Canudos. Comandados pelo líder religioso Antônio Conselheiro, beatos, jagunços e ex-escravos organizaram um movimento messiânico que rejeitava as mudanças que o novo regime provocara nos poderes da Igreja. Taxado de "restaurador do trono", foi severamente criticado. "Euclides começa a se interessar por Canudos em um artigo que escreve para O Estado de S.Paulo chamado ‘A nossa Vendéa’", explicou Roberto Pompeu de Toledo. O texto comparava o conflito com a Revolução Francesa e afirmava que os "revolucionários" eram contra o regime republicano. "Ele está contaminado por aquele pensamento da elite brasileira de que ali havia uma trincheira de malfeitores que estavam conspirando contra o regime", disse.

A pedido de Euclides, Júlio Mesquita solicitou ao ministro da Guerra que o escritor participasse da comitiva como adido militar, um privilégio que os demais correspondentes não desfrutavam. O escritor chegou à Bahia pouco antes do final do conflito, mas ainda a tempo de presenciar as últimas batalhas. Ao todo, O Estado de S.Paulo publicou 34 artigos e 57 despachos telegráficos sobre o conflito. Na sede do arquivo do jornal, Dines leu um trecho do primeiro telegrama enviado pelo correspondente: "‘Afirmam as testemunhas um fato que eu já previra. Quatro ou seis jagunços faziam estacar, perturbado, um batalhão inteiro’".

A Guerra de Canudos é um episódio crucial na imprensa brasileira. "É o primeiro momento em que os jornais mandam enviados especiais para cobrir um evento que está galvanizando a população. Não é à toa, isso é proporcionado por um avanço tecnológico que é o telégrafo. O telégrafo chega até Monte Santo e possibilita que os correspondentes mandem as suas matérias para os seus órgãos. Mas até então é uma meia dúzia, talvez um pouco mais, de enviados dos jornais, naturalmente fazendo uma cobertura parecida com aquilo que nos EUA se chama de embeded, incorporados ao Exército. Muitos deles até faziam parte, tinha essa duplicidade", explicou Roberto Pompeu de Toledo.

Toda a cobertura era censurada. O Exército, que instalara o telégrafo, revisava as reportagens antes de enviar aos órgãos de comunicação. O correspondente do Jornal do Commercio, Manuel Benício, foi afastado da função por ser "incômodo", conforme explicou Roberto Pompeu de Toledo. "Era uma cobertura melhor, mais viva, mais corajosa que a de Euclides", avaliou. "É muito diferente o Euclides jornalista. Até dá a impressão de que ele estava escondendo a bala, o estoque, a munição dele para o livro. Realmente o livro é uma coisa esplendorosa, é um grande momento da literatura brasileira".

Jornalista ou escritor?


Dines questionou se Euclides da Cunha era "um jornalista ou um escritor que escrevia em jornal". Walnice Galvão explicou que no início do século 20 era comum que intelectuais e profissionais de diversas áreas – como Direito e Medicina – escrevessem artigos em jornais. Estas colaborações tornavam o nível das publicações "altíssimo". Roberto Pompeu de Toledo acrescentou que o conceito de jornalista era diferente do adotado atualmente.

"Não existia um profissional tal qual nós o entendemos hoje. Euclides era muita coisa. Era engenheiro, era militar, geólogo amador, sociólogo amador, ele era tudo. E, evidentemente, colaborou muito com a imprensa. Aliás, não só colaborou, ele trabalhou. Ele era redator de O Estado de S.Paulo numa certa fase da vida dele, às vésperas de ser enviado para Canudos. Então, houve períodos em que ele parecia um pouco esse jornalista profissional que nós somos hoje. Agora, eu não diria que a produção dele é uma produção jornalística, especialmente quando estamos falando de Os Sertões", disse Roberto Pompeu de Toledo.

Daniel Piza avaliou que Euclides da Cunha mescla jornalismo e literatura na cobertura da Guerra. "A gente vê claramente que ele é um escritor, um homem de letras indo a um local para testemunhar um fato. Ao mesmo tempo ele é um repórter na essência porque ele chega como alguém que tem que fazer despachos para um jornal, tem que apurar as informações. E faz esse trabalho muito bem a tal ponto que ele chega a Canudos com uma carga de preconceitos e de visões pré-estabelecidas e vai abrindo mão daquilo porque os fatos o obrigam. Então, nesse aspecto, ele é sim um pioneiro do jornalismo moderno e acho que tem essa coisa de ser ‘o novo jornalista’ porque o estilo dele não é só o estilo que traz informações, mas que também te faz se sentir no ambiente com recursos literários."

De vilões a heróis

Ao retornar de Canudos, o escritor tem uma outra visão do conflito. Walnice Galvão explicou que Euclides da Cunha cultiva uma atitude dúbia em relação ao Conselheiro em Os Sertões. "Ele diz, às vezes, que era um homem genial e, outras vezes, que é um bufão, um louco falando sozinho. Ele tem as duas coisas misturadas", contou. "Mas ele foi ganho pela admiração que teve pelos canudenses. Ele foi pra lá e viu que eles lutavam até a morte pela suas convicções, pelos seus princípios. Ele ficou muito mal. Ele sai dois dias antes do fim da guerra e fica ruminando aquele livro. Fica cinco anos escrevendo, estudando, porque aquele livro precisa de muito estudo pra ser escrito. Ele já escreve com a convicção de que está escrevendo o ‘livro vingador’, que é como ele chama o livro em diversas ocasiões. E foi uma reviravolta muito penosa", avaliou.

O Observatório foi a São José do Rio Pardo, cidade paulista na qual Euclides da Cunha escreveu parte de Os Sertões e onde hoje descansam seus restos mortais. Engenheiro de Obras Públicas de São Paulo, Euclides foi designado para reconstruir uma ponte metálica destruída em uma enchente. "Quando ele chegou, já havia boa parte - especialmente de ‘A Terra’ - em estado de publicação. Ele retocou, editou, a parte de ‘O Homem’ e ‘A Luta’. O essencial da presença de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo foi ter dado a fórmula definitiva ao Os Sertões", explicou Márcio Lauria. Dines mostrou aos telespectadores a cabana de zinco e sarrafos à beira do rio que servia de escritório durante o período.

"É um livro da perplexidade do encontro de um Brasil com um outro Brasil. De um Brasil que o Euclides chama de ‘o Brasil do litoral’, que encontrou o ‘Brasil do sertão’. Um encontro de um Brasil urbano, conectado com o mundo, com um Brasil que ficou pra trás, atrasado. E esse choque é exposto como pano de fundo a uma guerra muito simbólica, muito emblemática, e muito rica em detalhes, nas suas evoluções, nos seus episódios", disse Roberto Pompeu de Toledo.

Após o sertão, a selva

Em 1904 Euclides da Cunha se candidatou para uma nova aventura. Por interferência do Barão do Rio Branco foi escolhido para chefiar a comissão de demarcação das fronteiras entre Brasil e Peru. Uma viagem de cerca de um ano na floresta amazônica. "Euclides tinha o espírito muito extremista, isso é muito simpático nele, ele era muito aventuresco, ele não se acomodava em nada, ele queria outra aventura. Não contente em ter ido à Guerra de Canudos, que não era pouco, não contente em já ser um homem importantíssimo - membro da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, autor conhecido no Brasil inteiro – ele cismou que queria ir pra Comissão de Reconhecimento do Alto Purus", relembrou Walnice Nogueira.

Daniel Piza explicou que durante a longa e atribulada viagem pela Amazônia, Euclides viu o conflito entre o homem e a natureza. "Assim como os sertanejos, que ele diz que eram ‘fortes’ para resistir ao meio hostil, ele viu mesmo com os seringueiros, com os caboclos daquela região do Acre que eram ‘fortes’ também porque eram nômades e tinham que se acostumar a uma natureza bastante adversa. Em uma tão importante frase quanto ‘o sertanejo é antes de tudo um forte’, ele definiu da seguinte forma: ‘o seringueiro trabalha para escravizar-se. Então, ele captou que era um regime de trabalho muito perto da escravidão e disse que só teria jeito a Amazônia se você começasse mudando as relações trabalhistas’", contou.

A tragédia pessoal que abalou o país

Ao retornar da expedição, Euclides encontra sua mulher, D. Saninha, grávida. Há alguns meses, ela mantinha uma relação extraconjugal com o jovem cadete Dilermando de Assis. "O casamento era um desastre. Há inúmeras testemunhas e todo mundo sabia que aquele casamento não tinha dado certo, era da mais absoluta incompatibilidade", contou Walnice Galvão.

"D. Saninha jurava que ia romper com o Dilermando e que aquilo não iria adiante, mas ela não conseguia. Era uma paixão, realmente, de parte a parte. Até que então, um dia, não se sabe direito a circunstância, mas sabe-se que ela pegou os filhos, menos o mais velho, que já estava na Escola Militar, e foi embora. Fugiu de casa e foi para casa do Dilermando, no bairro da Piedade", relembrou.

No chuvoso domingo no qual ocorreu a tragédia, Euclides invadiu a casa de Dilermando com revólver em punho. Assim que o cadete surgiu na sala, atirou contra ele, mas o Dilermando era campeão de tiro. Apesar de atingido, reagiu e matou o escritor com dois disparos. A notícia correu a cidade e estampou as manchetes dos jornais. Enquanto a imprensa paulista mantinha discrição, a carioca explorava o crime. "No Rio, os jornais se divertiram com o que houve", disse Walnice.

Dois anos depois, o cadete foi julgado e absolvido por legítima defesa. "O Brasil inteiro queria que ele fosse guilhotinado, mas não conseguiram. Eu publiquei os Autos do processo, não tinha jeito de dizer que não era legítima defesa porque era. Alguém invade a sua casa dando tiro, você se defende. Houve apelação para o Supremo e ele ganhou outra vez", disse a professora. Imediatamente após sair da cadeia, casa-se com D. Saninha.

Um século depois, a história sem ponto final


"De vez em quando, alguém ressuscitava a história. Faziam entrevista com o Dilermando e ele falava mais do que devia porque tinha muita culpa em cima dele. Há uma frase, que é de um dos jornalistas da época, não se sabe se o jornalista inventou ou se foi o Dilermando que disse: ‘eu cometi o crime de matar um Deus’. Passou o resto da vida execrado, apesar de ter sido absolvido duas vezes", enfatizou Walnice Galvão.

Sete anos após o crime, uma nova tragédia abalou a família. O filho preferido de Euclides, estimulado pela família a buscar vingança pela morte do pai, morre em uma troca de tiros com Dilermando de Assis. "Uma família destroçada pela sucessão de assassinatos e vinganças onde não há vilões e todos são vítimas. Mas a força de suas palavras foi maior. O escritor ficou eternizado como um dos maiores nomes da cultura nacional. E sua grande obra, Os Sertões, gerou um formidável acervo: dezenas de reportagens, livros, trabalhos acadêmicos, curtas e longas-metragens e até uma mini-série de tv. Esta é uma história cujo desfecho ainda não foi escrito", disse Dines.

Matéria extraída e adaptada deste link para o portal IG

O Observatório da imprensa pode ser assistido todas as terças, às 22h40, na TV Brasil (antiga TVE). (veja a lista de canais)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Caderno do Jornal do Brasil especial 1

Edição da obra completa de Euclides da Cunha homenageia centenário

Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Os euclidianos agradecem. A sair pela Nova Aguilar, a nova edição da Obra completa, preparada para o centenário da morte de Euclides da Cunha, traz modificações e acréscimos fundamentais. A principal delas é a inclusão do livro Caderneta de campo, que não constava em nenhuma das edições anteriores. Além disso, oferece um número representativo de dispersos, com destaque para 15 poemas inéditos e 22 novas cartas. Nesta entrevista, o ensaísta e crítico literário Paulo Roberto Pereira, responsável pela edição da obra, antecipa as mudanças – entre elas, uma nova fortuna crítica – e comenta a importância e a permanência de Euclides.

Que modificações há na nova edição da Obra completa?

A nova edição, preparada para o centenário de morte do escritor fluminense, traz algumas modificações fundamentais. Incluímos o livro Caderneta de campo, que não integrou nenhuma das edições da obra completa de Euclides. Reunimos um representativo número de dispersos, tanto em prosa quanto em verso, que são, em sua maioria, desconhecidos mesmo de alguns euclidianistas. Um bom exemplo é a poesia de Euclides. A edição de 1966 continha 37 poemas e a do centenário conterá 52, com o acréscimo de 15 novos poemas inéditos em livro. Outro caso de acréscimo de inéditos é o seu epistolário, que, na edição de 1966, reunia 191 cartas. Na publicada por Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti, em 1997, 397 cartas. Agora, ampliamos o epistolário com 22 novas cartas, inéditas em livro, totalizando sua correspondência em 419 cartas. Acrescentamos, também, seis crônicas políticas, inéditas em livro, escritas por Euclides entre 1889 e 1893, em que debate as consequências da abolição da escravatura e a implantação da República no Brasil. Gostaria também de destacar a preocupação com a qualidade editorial, dentro do princípio de aproximar os textos da última vontade do autor. Assim, fizemos o confronto de todos os textos com as melhores edições existentes, tornando a edição do centenário uma obra que o leitor terá a garantia de estar diante da melhor publicação possível para se homenagear o grande estilista da língua portuguesa que foi Euclides da Cunha.

Por que a decisão de fazer uma nova fortuna crítica?

Respeito muito os autores que constavam da edição de 1966. Aliás, não se pode estudar Euclides sem ler, entre outros, Gilberto Freyre, Nelson Werneck Sodré, Olímpio de Souza Andrade, Afrânio Coutinho. Isso comprova que algumas gerações antes da nossa souberam preservar o legado euclidiano. Contudo, nos últimos 40 anos, surgiram excelentes trabalhos que não poderiam estar ausentes da obra completa. Daí a decisão de retirar da fortuna crítica todos os textos que integravam a antiga, visando oferecer ao leitor de hoje o que de melhor foi produzido, em termos de juízos críticos a respeito de Euclides, nos últimos 40 anos. Nesta nova edição encontram-se Walnice Nogueira Galvão, Adriano Espínola, Alfredo Bosi, Augusto de Campos, Berthold Zilly, Francisco Foot Hardman, José Carlos Barreto de Santana, Leopoldo M. Bernucci, Luiz Costa Lima, Milton Hatoum, que trataram de temas caros a Euclides, como a Amazônia, a República, Canudos e os sertões. Homenageia-se também, com a inclusão de seus textos, os euclidianistas José Calasans, Nereu Corrêa e Roberto Ventura, que já não se encontram entre nós.

Há quanto tempo o senhor está mergulhado no trabalho da edição?

Leio e estudo Euclides da Cunha há muitos anos, pois fui a vida toda professor de literatura brasileira. Por sinal, tenho uma boa euclidiana com algumas edições raras e as principais obras sobre Euclides. Em 1995, estive mergulhado no acervo euclidiano, pois fui o responsável pela atualização bibliográfica da reedição da obra completa. A dedicação integral no preparo desta edição está completando um ano, com uma média de 12 horas de trabalho por dia.

Como definir o estilo de Euclides da Cunha, que para muitos leitores é um obstáculo?

Negar que Euclides é um autor difícil, particularmente nas duas primeiras partes de Os sertões, é demonstrar pouco conhecimento do autor. Euclides é contemporâneo de um momento cultural que abrange o realismo/naturalismo/simbolismo com o pré-modernismo, onde cabiam autores tão díspares como ele próprio e Augusto dos Anjos, pela afinidade com uma literatura de viés expressionista com ênfase em ruínas, sangue, morte, e um vocabulário rebuscado, precioso, que o aproxima de Rui Barbosa e Coelho Neto. Mas existe outro Euclides, de algumas passagens memoráveis de Os sertões e de alguns ensaios e crônicas de Contrastes e confrontos e de em À margem da história, que o colocam entre os grandes estilistas da língua portuguesa. Basta ler “O Marechal de Ferro”, extraordinário retrato psicológico do marechal Floriano Peixoto, que se encontra em Contrastes e confrontos, ou a crônica “Judas-Ahsverus”, um dos mais atraentes e terríveis retratos daquele homem que, fugindo da seca, morre sedento de justiça nas águas amazônicas, incluída por Euclides no seu livro póstumo À margem da história.

O que poderia se esperar do livro sobre a Amazônia, que ficou inconcluso?

Primeiro é muito difícil saber se Euclides tinha condições de produzir o seu segundo livro vingador. As condições especiais em que escreveu Os sertões, em São José do Rio Pardo, não existiam mais. Quando volta da Amazônia em janeiro de 1906, Euclides está duplamente doente: além da tuberculose de infância trazia as doenças contraídas na selva, onde até fome passou. Por outro lado a sua família estava destruída, com a mulher já grávida do amante e, para desespero total, continuava sem emprego fixo. Portanto, o que ficou do legado euclidiano sobre a Amazônia, conforme já ressaltou Gilberto Freyre, é o Euclides extremamente lúcido em brilhantes ensaios que antecipa a nossa visão ecológica de defesa do meio ambiente.

O que dizer das variações literárias em torno de Os sertões?

Quanto a escritores estrangeiros que fizeram uma releitura de Os sertões, o pioneiro foi Robert B. Cunninghame Graham, que publicou, em Londres, em 1920, o livro Um místico brasileiro, só traduzido para o português em 2002. Em 1952, o francês Lucien Marchal publicou o ótimo Le Mage du sertão, nunca traduzido entre nós, mas que possui boas traduções em outras línguas. Em 1981, surgiu A guerra do fim do mundo, extraordinário livro de Mario Vargas Llosa. Mas o rastro de Os sertões continuou com seus frutos com o aparecimento, em 1970, do romance Veredicto em Canudos, do húngaro Sándor Márai, que tivemos o privilégio de ler na primorosa tradução de Paulo Schiller, lançada em 2002. As marcas euclidianas, entretanto, estão mais perto de nós do que imaginamos. Em 1957, dizia Jorge Luís Borges, no seu gabinete de trabalho na Biblioteca Nacional, a Alexandre Eulálio: “De la literatura brasileña conozco unicamente a Euclides da Cunha”.

Euclides da Cunha acreditava de fato na idéia do fim do mundo (teoria do esfriamento caótico do planeta)?

Realmente é difícil ter uma resposta concreta. Como se sabe, Euclides foi um intelectual que passou a vida estudando e, consequentemente, mudando de opinião, aperfeiçoando seu conhecimento.

O que acha da recente interpretação segundo a qual Euclides da Cunha, ao dirigir-se à casa de Dilermano de Assis, queria morrer?

É um ponto de vista. É sabido, conforme consta das últimas cartas de Euclides a seu cunhado Otaviano da Costa Vieira, que o escritor estava muito mal, devido ao agravamento da tuberculose. A saída de casa da mulher carregando os filhos deve ter levado Euclides a tomar uma decisão que o seu temperamento explosivo controlara até aquele momento. Foi uma tragédia anunciada.

O que é mais evidente da permanência de Euclides hoje?

A sua ampla visão do país, que estimulou o aparecimento de grandes intérpretes da nossa realidade, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda. A sua atitude de honestidade intelectual foi um farol para se pensar os impasses da nação e se buscar soluções para o desencontro, sobretudo social, ante a realidade dos vencidos que encontramos nas periferias do país. Portanto, não é de se surpreender que Euclides tenha escrito o ensaio político “Um velho problema”, que encontramos no livro Contrastes e confrontos, em que se atribui, a partir dele, sua adesão às ideias socialistas.

Há a possibilidade de surgir, no atual cenário brasileiro, um livro tão vingador como Os sertões?

Nada que é humano é impossível. A nossa realidade não é a ideal, mas a possível dentro do processo histórico. O Brasil de hoje tem grandes escritores. Não duvido que possa surgir um novo livro vingador que faça um afresco das nossas contradições e mazelas políticas no alvorecer do século 21.

in: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/08/14/e140821304.asp

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Especial Folha de São Paulo 2

Contexto histórico fez de "Os Sertões" um livro- símbolo no País

Por Regina Abreu, em especial da Folha de São Paulo publicado em 02 de agosto de 2009.

Quando o livro "Os Sertões" foi lançado em 1902, na sede da editora Laemmert à rua dos Inválidos, no centro do Rio de Janeiro, ninguém supunha, nem mesmo seu autor, o sucesso de vendas e de crítica que adviria nos anos seguintes. A surpresa foi tão grande que Sílvio Romero, um dos mais importantes críticos do período, assim se referiu à consagração súbita da obra e de seu autor: "De Euclydes da Cunha pode-se dizer que se deitou obscuro e acordou célebre com a publicação de "Os Sertões"." De 1902 a 1909, ano da trágica morte de Euclydes, o país conheceu três edições do livro, chegando a atingir 10 mil exemplares de venda. Num país onde se registrava 85% de taxa de analfabetismo, esse sucesso de vendas expressava efetivamente um best-seller. É preciso ter claro que o autor debutava nas letras. "Os Sertões" era seu primeiro livro e ele se via muito mais como engenheiro do que como escritor. A consagração súbita do livro teve pois um efeito no próprio autor, que, em carta a Araripe Jr., outro importante crítico do período, chegou a confessar que, após o êxito de sua primeira obra literária, ele, "que até então era um engenheiro letrado, com o defeito insanável de emparceirar às parcelas dos orçamentos as idealizações da arte", tinha subitamente se transformado "num escritor apenas transitoriamente desgarrado na engenharia". Ou seja, a consagração de "Os Sertões" serviu também para dar à luz o escritor Euclydes da Cunha.

A unanimidade em torno da relevância do livro foi tão grande que ele conheceu uma glorificação meteórica nos seus pouco mais de seis anos de vida posteriores ao lançamento. Um dos coroamentos do sucesso veio em maio de 1903, com a nomeação para o cargo de sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, instituição das mais renomadas na ocasião. Ainda no mesmo ano, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na cadeira que tinha Castro Alves como patrono. O livro atravessou esses cem anos aureolado por crescente prestígio. Diversas enquetes realizadas em diferentes épocas com intelectuais têm apontado "Os Sertões" como uma das obras mais representativas da cultura brasileira, uma espécie de "livro número 1" indispensável para quem quer conhecer o Brasil. Chegou a ser chamado de "Bíblia da nacionalidade", obra que expressa o dilema nacional, ou seja, que procura sinalizar características capazes de distinguir o país enquanto civilização nacional autêntica.

Leituras diversas Independentemente das razões que cercam a unanimidade da crítica e do público em torno da obra-prima de Euclydes da Cunha, o interessante é perceber que estamos diante de um livro que foi adquirindo uma força simbólica capaz de desempenhar funções sociais que vão muito além de suas qualidades literárias ou científicas. O livro foi sendo investido de uma espécie de valor sagrado, tornando-se citação obrigatória da mais vasta gama de intelectuais brasileiros. É interessante também acompanhar como, ao longo destes mais de cem anos, o livro foi servindo a diferentes leituras em função das mudanças de interesses no campo da literatura, da política e, sobretudo, da construção do Estado-nação. Podemos destacar alguns desses momentos. Primeiro, o momento da consagração do livro no início do século 20. Os três críticos literários que guindaram o livro ao mais alto escalão, Araripe Jr., José Veríssimo e Sílvio Romero, tinham alguns pontos em comum: a origem provinciana e as crenças no valor da ciência e em uma sociedade regida pelos princípios do talento e do mérito.

A "trindade crítica do realismo" mantinha vínculos importantes com os principais focos de renovação intelectual e política, compostos de intelectuais com pequeno capital social, na grande maioria vindos das diversas províncias espalhadas pelo território, que tomaram contato com o ideário científico em instituições como a Faculdade de Direito do Recife ou a Escola Militar no Rio. Esses críticos, além de apontarem as qualidades literárias do livro, apropriaram-se de seus aspectos mais contundentes, sublinhando a preeminência da natureza na formação da identidade nacional, sobretudo no sertanejismo. Como "escritores sertanejos", ou seja, como escritores que vinham do interior do país e que afirmavam na capital federal um olhar diferenciado e singular em oposição aos princípios da sociedade de corte que ainda vigoravam no país, esses críticos utilizam "Os Sertões" como bandeira de uma cruzada pelo valor da ciência articulado com a aspiração de uma nova postura ética, o valor do talento e do mérito como princípios sociais reguladores. Euclydes da Cunha não tinha padrinhos, não fazia parte da roda de literatos da rua do Ouvidor. Euclydes representava um novo modelo de intelectual que apenas se esboçava. Foi isso que os críticos pressentiram.

Martírio

Um outro momento importante ocorre após a morte trágica do autor. A ocasião foi propícia para a construção do mito do mártir da nacionalidade, representação que se agregou ao escritor e que só foi ampliada nos anos que se seguiram. Características marcantes de "Os Sertões" eram associadas a aspectos da personalidade e da trajetória do escritor. Euclydes da Cunha passou a simbolizar a conciliação de vertentes de pensamento até então tidas como inconciliáveis. A figura do engenheiro que se mesclava com a do escritor, construindo uma ponte metálica em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, de acordo com as tecnologias mais avançadas da técnica e da ciência, ao mesmo tempo em que escrevia um livro sobre as qualidades dos habitantes de uma região inóspita do interior do Brasil, passava a ser uma metáfora para aqueles que se dedicariam a pensar o Brasil daí em diante. Euclydes da Cunha era apropriado como o escritor que sabia como nenhum outro conciliar os contrastes.

Assim como o escritor, o Brasil era visto como terra de contrastes, país que era no mínimo dois e procurava a conciliação consigo mesmo, com suas metades, com suas múltiplas faces. A polifonia do livro permitiu aproximações plurais, mas o que é mais significativo é a associação de "Os Sertões" com a representação do próprio país. A ideia de uma obra aberta, uma Bíblia onde diferentes aspectos da nação podiam ser encontrados, inspira pensadores e políticos em todo o decorrer do século 20. Um deles foi o pesquisador Edgar Roquette Pinto (1884-1954), que, entre suas muitas realizações, criou, na qualidade de diretor do Museu Nacional, uma sala em homenagem a Euclydes da Cunha ao lado da sala Humboldt. No dia da inauguração, Afrânio Peixoto estabeleceu uma analogia entre Euclydes da Cunha e os bandeirantes e tratou o livro "Os Sertões" como instrumento para descobrir o Brasil. Euclydes era apresentado como "o novo bandeirante de uma nova entrada para a alma da nacionalidade brasileira". Mas o livro foi também apropriado para justificar políticas de Estado. Durante o Estado Novo, o governo federal tinha entre suas principais metas a virada para o interior, visando colonizar regiões ainda pouco exploradas. Essa meta foi explicitada por Cassiano Ricardo, um dos ideólogos do Estado Novo, num livro intitulado "A Marcha para o Oeste".

Letras agrestes

Euclydes da Cunha foi tomado como símbolo da "tradição de bandeirar", e "Os Sertões", como roteiro para os "bandeirantes modernos" do Estado Novo. A bandeira era tomada em sentido mítico. Existiria, assim, um "bandeirante anônimo caminhando no sangue de cada um de nós". Cassiano Ricardo visava legitimar o projeto de colonização do interior instituído por Getúlio Vargas, que tomou a mesma denominação de seu livro. Além de constituírem a primeira democracia nascida da terra e o primeiro governo independente de Portugal, as bandeiras teriam criado nossa geografia, unindo todas as raças e povoando nosso território. Euclydes teria sido um bandeirante pioneiro. E isso por vários motivos: a insubmissão republicana; o estilo agreste e retorcido (escreve como um cipó); o físico (ele era um caipira, um mameluco, com cerdas de bororo); o modo como escreveu "Os Sertões" (no rancho); a atitude de acompanhar o batalhão paulista a Canudos, como correspondente de guerra. Mas é importante chamar a atenção para outras leituras de Euclydes da Cunha e de "Os Sertões" que não se tornaram tão emblemáticas. No ensaio "Engenheiro Físico Alongado em Social e Humano", Gilberto Freyre não trabalha com a oposição sertão versus litoral. Freyre parte da visão conciliatória, chegando mesmo a desconsiderar a importância de confrontar o sertão e o litoral. Do seu ponto de vista, tratava-se de "unir-se o sertão com o litoral para a salvação do Brasil", fazer "caminhos entre as cidades e os sertões", criar comunicações entre o "deserto brasileiro" e o "litoral agrário". Para Freyre, a questão que se deduzia a partir da leitura de Euclydes era muito mais a necessidade de maior circulação entre as regiões do que a ideia de uma "marcha para oeste" ou para dentro. Se "Os Sertões" vem representando uma unanimidade nacional em termos da importância conferida ao livro no contexto do pensamento social brasileiro, essa unanimidade é complexa, polissêmica e aberta a múltiplas e variadas interpretações. Talvez seja exatamente essa polifonia que faz de "Os Sertões" e de seu autor elementos permanentes no imaginário nacional.

REGINA ABREU é antropóloga, professora da UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) e autora de "O Enigma de "Os Sertões'" (ed. Rocco).


Especial Folha de São Paulo 1

O texto a seguir foi escrito por Marco Antônio Villa, que é professor de história na Universidade Federal de São Carlos (SP) e autor, entre outros livros, de "Canudos - O Povo da Terra" (Ática). Foi publicado em um especial da Folha de São Paulo sobre o escritor, no dia 02 de agosto corrente. Ele é parte do esforço do Blog em dar acesso ao maior número de interessados à produção jornalística e acadêmica acerca do escritor homenageado. Os demais trechos do especial serão publicados em outros posts; nesse primeiro, o citado professor fala da melancolia presente ao longo de toda a vida de Euclides da Cunha, relacionando-a ao desencanto com a sociedade da época, o texto foca especialmente no deságue dessa sensação no desfecho trágico da vida do escritor, vale a pena ler:

Foi para matar ou morrer; mas queria morrer

Se Eça de Queiroz dizia que nada mais era que "um pobre homem de Póvoa de Varzim", Euclydes da Cunha definiu-se como "um tímido": "Nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja".

Euclydes foi um homem de Estado e toda sua reflexão foi dirigida ao poder: em momento nenhum falou para o povo. Foi um crítico do Brasil. Uma semana antes de morrer, disse ao cunhado: "Vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis. (...) Nostalgia e revolta: tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes. Nunca se berrou tão convictamente tanta asneira sob o sol!". Anos antes, escreveu: "Este país é organicamente inviável".

O Brasil passava pelo que chamou de "pasmaceira trágica". Seu grande amigo, Francisco Escobar, tentou articular uma candidatura a deputado federal.

Euclydes logo desistiu: "Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer - para a qual decididamente não me preparei. Os homens repelem, com razão, os intrusos."

Ironizava a política ("nesta terra é a ocupação cômoda dos desocupados") e os corruptos. Ao mesmo amigo, relatou que foi convidado para cuidar da construção de um presídio: "Calcula lá, se podes, o enorme prazer com que vou desempenhá-la... e se pudesse escolher também os presidiários...". Outros da sua geração, como Silva Jardim e Raul Pompeia, também se desiludiram com o novo regime e tiveram mortes trágicas.

Quedas

Pompeia se suicidou no Natal de 1895, semanas após ter sido demitido do cargo de diretor da Biblioteca Nacional. Acreditava que a República tinha perdido o rumo.

Já Silva Jardim, o grande tribuno do período da propaganda republicana, não conseguiu sequer ser eleito deputado constituinte, em 1890. Desanimado, no ano seguinte, viajou para a Europa e acabou morrendo tragicamente na Itália: ao visitar o Vesúvio, caiu numa fenda próxima à cratera e foi tragado pelo vulcão.

As discordâncias de Euclydes com o novo regime foram manifestadas ainda durante a Presidência de Deodoro da Fonseca [1889-91]. No quadriênio seguinte abandonou o Exército, mudou-se para São Paulo e tornou-se funcionário da Superintendência de Obras Públicas. Permaneceu uma década e depois rumou para o Rio de Janeiro, obtendo, por meio do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, comissões do Itamaraty, mas sem fazer parte do corpo diplomático.

Só obteve a nomeação de professor de lógica para o Colégio Pedro 2º [então Ginásio Nacional] graças à articulação com o grupo político conhecido como "Jardim da Infância", vinculado a Afonso Pena [presidente de 1906 a 1909], especialmente com o deputado Carlos Peixoto. Afinal, a lei dava ao presidente da República o direito de escolher qualquer um entre os dois primeiros colocados do concurso público. Mesmo assim, não perdeu oportunidade para criticar Farias Brito, o primeiro colocado: "um pobre filósofo, cearense e anônimo"; autor de um livro "que ninguém leu". Mas nunca foi oportunista.

Quando Floriano Peixoto, em 1893, tinha enorme poder, o recebeu na sede do governo -Euclydes ainda era visto como o cadete que se rebelou contra a Monarquia. O presidente falou que poderia nomeá-lo para o que ele desejasse. O recém-formado respondeu que queria que fosse cumprida a lei, ou seja, um ano de estágio na Central do Brasil: "Quando me despedi pareceu-me que no olhar mortiço do interlocutor estava escrito: nada vales". Isso pode explicar o cruel retrato que fez, anos depois, de Floriano em "Contrastes e Confrontos": "O seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica das quantidades negativas; cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar -porque se lhe operara em torno uma depressão profunda".

Como bem definiu Roberto Ventura, seu biógrafo, Euclydes "seguiu sendo um eterno insatisfeito com as condições de exercício de suas atividades profissionais". Da Escola Militar foi expulso, em 1888; depois não se adaptou à vida de engenheiro militar; em São Paulo acabou pedindo demissão da secretaria de Obras; criticou a expedição que dirigiu no rio Purus e os trabalhos de cartografia no Ministério das Relações Exteriores. E como professor? Foram somente dez aulas; a última, dois dias antes do fatídico 15 de agosto. É possível que tenha sido feliz somente nos três anos e meio que passou em São José do Rio Pardo (SP), justamente onde pôde escrever com tranquilidade a sua obra-prima. Lá teve amigos e uma vida pessoal sem sobressaltos.

Mesmo assim, nos primeiros meses, reclamou: "Tenho a existência aspérrima de um condenado a trabalhos forçados, à margem de um rio odiento, diante do espantalho de uma ponte desmantelada".

Saúde frágil

Desde a Escola Militar teve uma saúde frágil. Durante a viagem para a Bahia, para cobrir a Guerra de Canudos, já estava doente. No retorno ficou três meses de licença médica. A tuberculose o acompanhou durante toda a vida. Ironizava os escarros de sangue: são os "telegramas da morte". Na Amazônia contraiu malária, o que agravou ainda mais seu estado.
Nos últimos meses de vida, fez inúmeras queixas aos amigos. Em julho de 1909, escreveu ao cunhado explicando que não podia ir visitar o pai: "Escrevo-te de cama. Anteontem à noite tive uma hemoptise e continuo mal, ameaçado de outra". Mesmo assim quis viajar, mas o médico o proibiu, pois "não chegaria vivo sequer a São Paulo".

Três dias antes de morrer, novamente ao cunhado, recordou que, se abandonasse o regime determinado pelo médico, "não resistirei". E tudo era agravado pelo estado depressivo crônico, amenizado pelo escritor como "meu pessimismo abominável". O casamento com Ana Emília Ribeiro, filha do general Sólon, foi um desastre. Euclydes era um homem difícil, de gênio irascível. A vida nômade (que ele chamava de "erradia e escorregadia") e as dificuldades financeiras agravaram a crise do casal. Tinha dificuldades ao tratar e falar com as mulheres.

Francisco Venâncio Filho, que publicou parte da correspondência do escritor, notou a ausência de cartas de amor. Sylvio Rabello, seu biógrafo, escreveu que "o outro sexo ele trazia narcisicamente em si mesmo": "Não se conhece nenhum gesto, palavra ou apenas olhar que indicasse a ternura do homem saudável pela mulher ou pelas mulheres que fosse encontrando pelo caminho". Na conferência que fez sobre Castro Alves, em São Paulo, não há menção aos amores do poeta baiano.
Já em "Os Sertões", as mulheres são retratadas, com raríssimas exceções, como monstros, repugnantes, viragos, bruxas. Uma delas, de acordo com o escritor, era "uma megera assustadora, bruxa, rebarbativa e magra -a velha mais hedionda talvez destes sertões". Outra era um "demônio de anáguas". Nem as imagens de santas, encontradas em Canudos, se salvaram: "Marias Santíssimas, feias como megeras".

As longas ausências do lar, sempre a trabalho, continuaram. A jovem cônjuge acabou buscando consolo no cadete Dilermando de Assis. O escritor viajou para a Amazônia, nomeado pelo Barão do Rio Branco para chefiar a Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira com o Peru. Partiu a 13 de dezembro de 1904. Regressou 13 meses depois.

Pesadelo

Passou semanas sem receber notícias da família. Na Amazônia tinha pesadelos. Era obrigado a dormir com uma vela acesa, sempre próxima ao corpo, tanto que, certa vez, chegou a queimar os lençóis, pois era perseguido pelo espectro de uma mulher, que ora entrava pela janela, ora pela porta do quarto, de acordo com o escritor Medeiros e Albuquerque.
No regresso encontrou a mulher grávida de dois meses. O bebê nasceu em julho. Sobreviveu somente uma semana. Em 1907, em novembro, nasceu mais um filho. Também não era seu. O pai, novamente, era Dilermando (mesmo assim registrou no seu nome e dizia que "era uma espiga de milho num cafezal"). O caso era público. A mulher não suportava mais suas viagens. As brigas eram constantes. E vinham desde os primeiros anos do casamento.

Em carta ao amigo, o poeta Vicente de Carvalho, em fevereiro de 1909, seis meses antes da tragédia da Piedade, escreveu: "Sinto que vou escorregando por uma metafísica horrorosa abaixo, e cedendo ao declive não sei onde irei parar". Insatisfeito com os rumos da República, humilhado pelos dilemas de um casamento fracassado e receoso das consequências de uma separação, com a saúde piorando a cada dia, sempre com problemas financeiros e, principalmente, sem condições de escrever o tão sonhado livro sobre a Amazônia, a manhã chuvosa de 15 de agosto de 1909 pode ter sido a sua libertação, de tantos fardos, de tanta angústia.

No mesmo dia, um domingo, foi publicada uma longa entrevista que deu para Viriato Corrêa. Não chegou a ler. Logo cedo se dirigiu ao bairro da Piedade, para a casa de Dilermando de Assis, onde sua mulher tinha passado a noite. Foi para matar ou morrer. Mas queria morrer.

(Marco Antônio Villa)