Contexto histórico fez de "Os Sertões" um livro- símbolo no País
Por Regina Abreu, em especial da Folha de São Paulo publicado em 02 de agosto de 2009.
Quando o livro "Os Sertões" foi lançado em 1902, na sede da editora Laemmert à rua dos Inválidos, no centro do Rio de Janeiro, ninguém supunha, nem mesmo seu autor, o sucesso de vendas e de crítica que adviria nos anos seguintes. A surpresa foi tão grande que Sílvio Romero, um dos mais importantes críticos do período, assim se referiu à consagração súbita da obra e de seu autor: "De Euclydes da Cunha pode-se dizer que se deitou obscuro e acordou célebre com a publicação de "Os Sertões"." De 1902 a 1909, ano da trágica morte de Euclydes, o país conheceu três edições do livro, chegando a atingir 10 mil exemplares de venda. Num país onde se registrava 85% de taxa de analfabetismo, esse sucesso de vendas expressava efetivamente um best-seller. É preciso ter claro que o autor debutava nas letras. "Os Sertões" era seu primeiro livro e ele se via muito mais como engenheiro do que como escritor. A consagração súbita do livro teve pois um efeito no próprio autor, que, em carta a Araripe Jr., outro importante crítico do período, chegou a confessar que, após o êxito de sua primeira obra literária, ele, "que até então era um engenheiro letrado, com o defeito insanável de emparceirar às parcelas dos orçamentos as idealizações da arte", tinha subitamente se transformado "num escritor apenas transitoriamente desgarrado na engenharia". Ou seja, a consagração de "Os Sertões" serviu também para dar à luz o escritor Euclydes da Cunha.
A unanimidade em torno da relevância do livro foi tão grande que ele conheceu uma glorificação meteórica nos seus pouco mais de seis anos de vida posteriores ao lançamento. Um dos coroamentos do sucesso veio em maio de 1903, com a nomeação para o cargo de sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, instituição das mais renomadas na ocasião. Ainda no mesmo ano, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, na cadeira que tinha Castro Alves como patrono. O livro atravessou esses cem anos aureolado por crescente prestígio. Diversas enquetes realizadas em diferentes épocas com intelectuais têm apontado "Os Sertões" como uma das obras mais representativas da cultura brasileira, uma espécie de "livro número 1" indispensável para quem quer conhecer o Brasil. Chegou a ser chamado de "Bíblia da nacionalidade", obra que expressa o dilema nacional, ou seja, que procura sinalizar características capazes de distinguir o país enquanto civilização nacional autêntica.
Leituras diversas Independentemente das razões que cercam a unanimidade da crítica e do público em torno da obra-prima de Euclydes da Cunha, o interessante é perceber que estamos diante de um livro que foi adquirindo uma força simbólica capaz de desempenhar funções sociais que vão muito além de suas qualidades literárias ou científicas. O livro foi sendo investido de uma espécie de valor sagrado, tornando-se citação obrigatória da mais vasta gama de intelectuais brasileiros. É interessante também acompanhar como, ao longo destes mais de cem anos, o livro foi servindo a diferentes leituras em função das mudanças de interesses no campo da literatura, da política e, sobretudo, da construção do Estado-nação. Podemos destacar alguns desses momentos. Primeiro, o momento da consagração do livro no início do século 20. Os três críticos literários que guindaram o livro ao mais alto escalão, Araripe Jr., José Veríssimo e Sílvio Romero, tinham alguns pontos em comum: a origem provinciana e as crenças no valor da ciência e em uma sociedade regida pelos princípios do talento e do mérito.
A "trindade crítica do realismo" mantinha vínculos importantes com os principais focos de renovação intelectual e política, compostos de intelectuais com pequeno capital social, na grande maioria vindos das diversas províncias espalhadas pelo território, que tomaram contato com o ideário científico em instituições como a Faculdade de Direito do Recife ou a Escola Militar no Rio. Esses críticos, além de apontarem as qualidades literárias do livro, apropriaram-se de seus aspectos mais contundentes, sublinhando a preeminência da natureza na formação da identidade nacional, sobretudo no sertanejismo. Como "escritores sertanejos", ou seja, como escritores que vinham do interior do país e que afirmavam na capital federal um olhar diferenciado e singular em oposição aos princípios da sociedade de corte que ainda vigoravam no país, esses críticos utilizam "Os Sertões" como bandeira de uma cruzada pelo valor da ciência articulado com a aspiração de uma nova postura ética, o valor do talento e do mérito como princípios sociais reguladores. Euclydes da Cunha não tinha padrinhos, não fazia parte da roda de literatos da rua do Ouvidor. Euclydes representava um novo modelo de intelectual que apenas se esboçava. Foi isso que os críticos pressentiram.
Martírio
Um outro momento importante ocorre após a morte trágica do autor. A ocasião foi propícia para a construção do mito do mártir da nacionalidade, representação que se agregou ao escritor e que só foi ampliada nos anos que se seguiram. Características marcantes de "Os Sertões" eram associadas a aspectos da personalidade e da trajetória do escritor. Euclydes da Cunha passou a simbolizar a conciliação de vertentes de pensamento até então tidas como inconciliáveis. A figura do engenheiro que se mesclava com a do escritor, construindo uma ponte metálica em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, de acordo com as tecnologias mais avançadas da técnica e da ciência, ao mesmo tempo em que escrevia um livro sobre as qualidades dos habitantes de uma região inóspita do interior do Brasil, passava a ser uma metáfora para aqueles que se dedicariam a pensar o Brasil daí em diante. Euclydes da Cunha era apropriado como o escritor que sabia como nenhum outro conciliar os contrastes.
Assim como o escritor, o Brasil era visto como terra de contrastes, país que era no mínimo dois e procurava a conciliação consigo mesmo, com suas metades, com suas múltiplas faces. A polifonia do livro permitiu aproximações plurais, mas o que é mais significativo é a associação de "Os Sertões" com a representação do próprio país. A ideia de uma obra aberta, uma Bíblia onde diferentes aspectos da nação podiam ser encontrados, inspira pensadores e políticos em todo o decorrer do século 20. Um deles foi o pesquisador Edgar Roquette Pinto (1884-1954), que, entre suas muitas realizações, criou, na qualidade de diretor do Museu Nacional, uma sala em homenagem a Euclydes da Cunha ao lado da sala Humboldt. No dia da inauguração, Afrânio Peixoto estabeleceu uma analogia entre Euclydes da Cunha e os bandeirantes e tratou o livro "Os Sertões" como instrumento para descobrir o Brasil. Euclydes era apresentado como "o novo bandeirante de uma nova entrada para a alma da nacionalidade brasileira". Mas o livro foi também apropriado para justificar políticas de Estado. Durante o Estado Novo, o governo federal tinha entre suas principais metas a virada para o interior, visando colonizar regiões ainda pouco exploradas. Essa meta foi explicitada por Cassiano Ricardo, um dos ideólogos do Estado Novo, num livro intitulado "A Marcha para o Oeste".
Letras agrestes
Euclydes da Cunha foi tomado como símbolo da "tradição de bandeirar", e "Os Sertões", como roteiro para os "bandeirantes modernos" do Estado Novo. A bandeira era tomada em sentido mítico. Existiria, assim, um "bandeirante anônimo caminhando no sangue de cada um de nós". Cassiano Ricardo visava legitimar o projeto de colonização do interior instituído por Getúlio Vargas, que tomou a mesma denominação de seu livro. Além de constituírem a primeira democracia nascida da terra e o primeiro governo independente de Portugal, as bandeiras teriam criado nossa geografia, unindo todas as raças e povoando nosso território. Euclydes teria sido um bandeirante pioneiro. E isso por vários motivos: a insubmissão republicana; o estilo agreste e retorcido (escreve como um cipó); o físico (ele era um caipira, um mameluco, com cerdas de bororo); o modo como escreveu "Os Sertões" (no rancho); a atitude de acompanhar o batalhão paulista a Canudos, como correspondente de guerra. Mas é importante chamar a atenção para outras leituras de Euclydes da Cunha e de "Os Sertões" que não se tornaram tão emblemáticas. No ensaio "Engenheiro Físico Alongado em Social e Humano", Gilberto Freyre não trabalha com a oposição sertão versus litoral. Freyre parte da visão conciliatória, chegando mesmo a desconsiderar a importância de confrontar o sertão e o litoral. Do seu ponto de vista, tratava-se de "unir-se o sertão com o litoral para a salvação do Brasil", fazer "caminhos entre as cidades e os sertões", criar comunicações entre o "deserto brasileiro" e o "litoral agrário". Para Freyre, a questão que se deduzia a partir da leitura de Euclydes era muito mais a necessidade de maior circulação entre as regiões do que a ideia de uma "marcha para oeste" ou para dentro. Se "Os Sertões" vem representando uma unanimidade nacional em termos da importância conferida ao livro no contexto do pensamento social brasileiro, essa unanimidade é complexa, polissêmica e aberta a múltiplas e variadas interpretações. Talvez seja exatamente essa polifonia que faz de "Os Sertões" e de seu autor elementos permanentes no imaginário nacional.
REGINA ABREU é antropóloga, professora da UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) e autora de "O Enigma de "Os Sertões'" (ed. Rocco).
Informações, ideias e notícias sobre o projeto que dá nome ao blog em homenagem ao escritor brasileiro Euclides da Cunha. Além disso, este espaço tem o objetivo de divulgar atividades relacionadas à propagação da educação e da literatura, assim como desejava o autor de "Os Sertões".
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terça-feira, 4 de agosto de 2009
Especial Folha de São Paulo 2
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Regina Abreu
Especial Folha de São Paulo 1
O texto a seguir foi escrito por Marco Antônio Villa, que é professor de história na Universidade Federal de São Carlos (SP) e autor, entre outros livros, de "Canudos - O Povo da Terra" (Ática). Foi publicado em um especial da Folha de São Paulo sobre o escritor, no dia 02 de agosto corrente. Ele é parte do esforço do Blog em dar acesso ao maior número de interessados à produção jornalística e acadêmica acerca do escritor homenageado. Os demais trechos do especial serão publicados em outros posts; nesse primeiro, o citado professor fala da melancolia presente ao longo de toda a vida de Euclides da Cunha, relacionando-a ao desencanto com a sociedade da época, o texto foca especialmente no deságue dessa sensação no desfecho trágico da vida do escritor, vale a pena ler:
Foi para matar ou morrer; mas queria morrer
Se Eça de Queiroz dizia que nada mais era que "um pobre homem de Póvoa de Varzim", Euclydes da Cunha definiu-se como "um tímido": "Nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja".
Euclydes foi um homem de Estado e toda sua reflexão foi dirigida ao poder: em momento nenhum falou para o povo. Foi um crítico do Brasil. Uma semana antes de morrer, disse ao cunhado: "Vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis. (...) Nostalgia e revolta: tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes. Nunca se berrou tão convictamente tanta asneira sob o sol!". Anos antes, escreveu: "Este país é organicamente inviável".
O Brasil passava pelo que chamou de "pasmaceira trágica". Seu grande amigo, Francisco Escobar, tentou articular uma candidatura a deputado federal.
Euclydes logo desistiu: "Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer - para a qual decididamente não me preparei. Os homens repelem, com razão, os intrusos."
Ironizava a política ("nesta terra é a ocupação cômoda dos desocupados") e os corruptos. Ao mesmo amigo, relatou que foi convidado para cuidar da construção de um presídio: "Calcula lá, se podes, o enorme prazer com que vou desempenhá-la... e se pudesse escolher também os presidiários...". Outros da sua geração, como Silva Jardim e Raul Pompeia, também se desiludiram com o novo regime e tiveram mortes trágicas.
Quedas
Pompeia se suicidou no Natal de 1895, semanas após ter sido demitido do cargo de diretor da Biblioteca Nacional. Acreditava que a República tinha perdido o rumo.
Já Silva Jardim, o grande tribuno do período da propaganda republicana, não conseguiu sequer ser eleito deputado constituinte, em 1890. Desanimado, no ano seguinte, viajou para a Europa e acabou morrendo tragicamente na Itália: ao visitar o Vesúvio, caiu numa fenda próxima à cratera e foi tragado pelo vulcão.
As discordâncias de Euclydes com o novo regime foram manifestadas ainda durante a Presidência de Deodoro da Fonseca [1889-91]. No quadriênio seguinte abandonou o Exército, mudou-se para São Paulo e tornou-se funcionário da Superintendência de Obras Públicas. Permaneceu uma década e depois rumou para o Rio de Janeiro, obtendo, por meio do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, comissões do Itamaraty, mas sem fazer parte do corpo diplomático.
Só obteve a nomeação de professor de lógica para o Colégio Pedro 2º [então Ginásio Nacional] graças à articulação com o grupo político conhecido como "Jardim da Infância", vinculado a Afonso Pena [presidente de 1906 a 1909], especialmente com o deputado Carlos Peixoto. Afinal, a lei dava ao presidente da República o direito de escolher qualquer um entre os dois primeiros colocados do concurso público. Mesmo assim, não perdeu oportunidade para criticar Farias Brito, o primeiro colocado: "um pobre filósofo, cearense e anônimo"; autor de um livro "que ninguém leu". Mas nunca foi oportunista.
Quando Floriano Peixoto, em 1893, tinha enorme poder, o recebeu na sede do governo -Euclydes ainda era visto como o cadete que se rebelou contra a Monarquia. O presidente falou que poderia nomeá-lo para o que ele desejasse. O recém-formado respondeu que queria que fosse cumprida a lei, ou seja, um ano de estágio na Central do Brasil: "Quando me despedi pareceu-me que no olhar mortiço do interlocutor estava escrito: nada vales". Isso pode explicar o cruel retrato que fez, anos depois, de Floriano em "Contrastes e Confrontos": "O seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica das quantidades negativas; cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar -porque se lhe operara em torno uma depressão profunda".
Como bem definiu Roberto Ventura, seu biógrafo, Euclydes "seguiu sendo um eterno insatisfeito com as condições de exercício de suas atividades profissionais". Da Escola Militar foi expulso, em 1888; depois não se adaptou à vida de engenheiro militar; em São Paulo acabou pedindo demissão da secretaria de Obras; criticou a expedição que dirigiu no rio Purus e os trabalhos de cartografia no Ministério das Relações Exteriores. E como professor? Foram somente dez aulas; a última, dois dias antes do fatídico 15 de agosto. É possível que tenha sido feliz somente nos três anos e meio que passou em São José do Rio Pardo (SP), justamente onde pôde escrever com tranquilidade a sua obra-prima. Lá teve amigos e uma vida pessoal sem sobressaltos.
Mesmo assim, nos primeiros meses, reclamou: "Tenho a existência aspérrima de um condenado a trabalhos forçados, à margem de um rio odiento, diante do espantalho de uma ponte desmantelada".
Saúde frágil
Desde a Escola Militar teve uma saúde frágil. Durante a viagem para a Bahia, para cobrir a Guerra de Canudos, já estava doente. No retorno ficou três meses de licença médica. A tuberculose o acompanhou durante toda a vida. Ironizava os escarros de sangue: são os "telegramas da morte". Na Amazônia contraiu malária, o que agravou ainda mais seu estado.
Nos últimos meses de vida, fez inúmeras queixas aos amigos. Em julho de 1909, escreveu ao cunhado explicando que não podia ir visitar o pai: "Escrevo-te de cama. Anteontem à noite tive uma hemoptise e continuo mal, ameaçado de outra". Mesmo assim quis viajar, mas o médico o proibiu, pois "não chegaria vivo sequer a São Paulo".
Três dias antes de morrer, novamente ao cunhado, recordou que, se abandonasse o regime determinado pelo médico, "não resistirei". E tudo era agravado pelo estado depressivo crônico, amenizado pelo escritor como "meu pessimismo abominável". O casamento com Ana Emília Ribeiro, filha do general Sólon, foi um desastre. Euclydes era um homem difícil, de gênio irascível. A vida nômade (que ele chamava de "erradia e escorregadia") e as dificuldades financeiras agravaram a crise do casal. Tinha dificuldades ao tratar e falar com as mulheres.
Francisco Venâncio Filho, que publicou parte da correspondência do escritor, notou a ausência de cartas de amor. Sylvio Rabello, seu biógrafo, escreveu que "o outro sexo ele trazia narcisicamente em si mesmo": "Não se conhece nenhum gesto, palavra ou apenas olhar que indicasse a ternura do homem saudável pela mulher ou pelas mulheres que fosse encontrando pelo caminho". Na conferência que fez sobre Castro Alves, em São Paulo, não há menção aos amores do poeta baiano.
Já em "Os Sertões", as mulheres são retratadas, com raríssimas exceções, como monstros, repugnantes, viragos, bruxas. Uma delas, de acordo com o escritor, era "uma megera assustadora, bruxa, rebarbativa e magra -a velha mais hedionda talvez destes sertões". Outra era um "demônio de anáguas". Nem as imagens de santas, encontradas em Canudos, se salvaram: "Marias Santíssimas, feias como megeras".
As longas ausências do lar, sempre a trabalho, continuaram. A jovem cônjuge acabou buscando consolo no cadete Dilermando de Assis. O escritor viajou para a Amazônia, nomeado pelo Barão do Rio Branco para chefiar a Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira com o Peru. Partiu a 13 de dezembro de 1904. Regressou 13 meses depois.
Pesadelo
Passou semanas sem receber notícias da família. Na Amazônia tinha pesadelos. Era obrigado a dormir com uma vela acesa, sempre próxima ao corpo, tanto que, certa vez, chegou a queimar os lençóis, pois era perseguido pelo espectro de uma mulher, que ora entrava pela janela, ora pela porta do quarto, de acordo com o escritor Medeiros e Albuquerque.
No regresso encontrou a mulher grávida de dois meses. O bebê nasceu em julho. Sobreviveu somente uma semana. Em 1907, em novembro, nasceu mais um filho. Também não era seu. O pai, novamente, era Dilermando (mesmo assim registrou no seu nome e dizia que "era uma espiga de milho num cafezal"). O caso era público. A mulher não suportava mais suas viagens. As brigas eram constantes. E vinham desde os primeiros anos do casamento.
Em carta ao amigo, o poeta Vicente de Carvalho, em fevereiro de 1909, seis meses antes da tragédia da Piedade, escreveu: "Sinto que vou escorregando por uma metafísica horrorosa abaixo, e cedendo ao declive não sei onde irei parar". Insatisfeito com os rumos da República, humilhado pelos dilemas de um casamento fracassado e receoso das consequências de uma separação, com a saúde piorando a cada dia, sempre com problemas financeiros e, principalmente, sem condições de escrever o tão sonhado livro sobre a Amazônia, a manhã chuvosa de 15 de agosto de 1909 pode ter sido a sua libertação, de tantos fardos, de tanta angústia.
No mesmo dia, um domingo, foi publicada uma longa entrevista que deu para Viriato Corrêa. Não chegou a ler. Logo cedo se dirigiu ao bairro da Piedade, para a casa de Dilermando de Assis, onde sua mulher tinha passado a noite. Foi para matar ou morrer. Mas queria morrer.
(Marco Antônio Villa)
Foi para matar ou morrer; mas queria morrer
Se Eça de Queiroz dizia que nada mais era que "um pobre homem de Póvoa de Varzim", Euclydes da Cunha definiu-se como "um tímido": "Nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja".
Euclydes foi um homem de Estado e toda sua reflexão foi dirigida ao poder: em momento nenhum falou para o povo. Foi um crítico do Brasil. Uma semana antes de morrer, disse ao cunhado: "Vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis. (...) Nostalgia e revolta: tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas, dos Pachecos empavesados e dos Acácios triunfantes. Nunca se berrou tão convictamente tanta asneira sob o sol!". Anos antes, escreveu: "Este país é organicamente inviável".
O Brasil passava pelo que chamou de "pasmaceira trágica". Seu grande amigo, Francisco Escobar, tentou articular uma candidatura a deputado federal.
Euclydes logo desistiu: "Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer - para a qual decididamente não me preparei. Os homens repelem, com razão, os intrusos."
Ironizava a política ("nesta terra é a ocupação cômoda dos desocupados") e os corruptos. Ao mesmo amigo, relatou que foi convidado para cuidar da construção de um presídio: "Calcula lá, se podes, o enorme prazer com que vou desempenhá-la... e se pudesse escolher também os presidiários...". Outros da sua geração, como Silva Jardim e Raul Pompeia, também se desiludiram com o novo regime e tiveram mortes trágicas.
Quedas
Pompeia se suicidou no Natal de 1895, semanas após ter sido demitido do cargo de diretor da Biblioteca Nacional. Acreditava que a República tinha perdido o rumo.
Já Silva Jardim, o grande tribuno do período da propaganda republicana, não conseguiu sequer ser eleito deputado constituinte, em 1890. Desanimado, no ano seguinte, viajou para a Europa e acabou morrendo tragicamente na Itália: ao visitar o Vesúvio, caiu numa fenda próxima à cratera e foi tragado pelo vulcão.
As discordâncias de Euclydes com o novo regime foram manifestadas ainda durante a Presidência de Deodoro da Fonseca [1889-91]. No quadriênio seguinte abandonou o Exército, mudou-se para São Paulo e tornou-se funcionário da Superintendência de Obras Públicas. Permaneceu uma década e depois rumou para o Rio de Janeiro, obtendo, por meio do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, comissões do Itamaraty, mas sem fazer parte do corpo diplomático.
Só obteve a nomeação de professor de lógica para o Colégio Pedro 2º [então Ginásio Nacional] graças à articulação com o grupo político conhecido como "Jardim da Infância", vinculado a Afonso Pena [presidente de 1906 a 1909], especialmente com o deputado Carlos Peixoto. Afinal, a lei dava ao presidente da República o direito de escolher qualquer um entre os dois primeiros colocados do concurso público. Mesmo assim, não perdeu oportunidade para criticar Farias Brito, o primeiro colocado: "um pobre filósofo, cearense e anônimo"; autor de um livro "que ninguém leu". Mas nunca foi oportunista.
Quando Floriano Peixoto, em 1893, tinha enorme poder, o recebeu na sede do governo -Euclydes ainda era visto como o cadete que se rebelou contra a Monarquia. O presidente falou que poderia nomeá-lo para o que ele desejasse. O recém-formado respondeu que queria que fosse cumprida a lei, ou seja, um ano de estágio na Central do Brasil: "Quando me despedi pareceu-me que no olhar mortiço do interlocutor estava escrito: nada vales". Isso pode explicar o cruel retrato que fez, anos depois, de Floriano em "Contrastes e Confrontos": "O seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica das quantidades negativas; cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar -porque se lhe operara em torno uma depressão profunda".
Como bem definiu Roberto Ventura, seu biógrafo, Euclydes "seguiu sendo um eterno insatisfeito com as condições de exercício de suas atividades profissionais". Da Escola Militar foi expulso, em 1888; depois não se adaptou à vida de engenheiro militar; em São Paulo acabou pedindo demissão da secretaria de Obras; criticou a expedição que dirigiu no rio Purus e os trabalhos de cartografia no Ministério das Relações Exteriores. E como professor? Foram somente dez aulas; a última, dois dias antes do fatídico 15 de agosto. É possível que tenha sido feliz somente nos três anos e meio que passou em São José do Rio Pardo (SP), justamente onde pôde escrever com tranquilidade a sua obra-prima. Lá teve amigos e uma vida pessoal sem sobressaltos.
Mesmo assim, nos primeiros meses, reclamou: "Tenho a existência aspérrima de um condenado a trabalhos forçados, à margem de um rio odiento, diante do espantalho de uma ponte desmantelada".
Saúde frágil
Desde a Escola Militar teve uma saúde frágil. Durante a viagem para a Bahia, para cobrir a Guerra de Canudos, já estava doente. No retorno ficou três meses de licença médica. A tuberculose o acompanhou durante toda a vida. Ironizava os escarros de sangue: são os "telegramas da morte". Na Amazônia contraiu malária, o que agravou ainda mais seu estado.
Nos últimos meses de vida, fez inúmeras queixas aos amigos. Em julho de 1909, escreveu ao cunhado explicando que não podia ir visitar o pai: "Escrevo-te de cama. Anteontem à noite tive uma hemoptise e continuo mal, ameaçado de outra". Mesmo assim quis viajar, mas o médico o proibiu, pois "não chegaria vivo sequer a São Paulo".
Três dias antes de morrer, novamente ao cunhado, recordou que, se abandonasse o regime determinado pelo médico, "não resistirei". E tudo era agravado pelo estado depressivo crônico, amenizado pelo escritor como "meu pessimismo abominável". O casamento com Ana Emília Ribeiro, filha do general Sólon, foi um desastre. Euclydes era um homem difícil, de gênio irascível. A vida nômade (que ele chamava de "erradia e escorregadia") e as dificuldades financeiras agravaram a crise do casal. Tinha dificuldades ao tratar e falar com as mulheres.
Francisco Venâncio Filho, que publicou parte da correspondência do escritor, notou a ausência de cartas de amor. Sylvio Rabello, seu biógrafo, escreveu que "o outro sexo ele trazia narcisicamente em si mesmo": "Não se conhece nenhum gesto, palavra ou apenas olhar que indicasse a ternura do homem saudável pela mulher ou pelas mulheres que fosse encontrando pelo caminho". Na conferência que fez sobre Castro Alves, em São Paulo, não há menção aos amores do poeta baiano.
Já em "Os Sertões", as mulheres são retratadas, com raríssimas exceções, como monstros, repugnantes, viragos, bruxas. Uma delas, de acordo com o escritor, era "uma megera assustadora, bruxa, rebarbativa e magra -a velha mais hedionda talvez destes sertões". Outra era um "demônio de anáguas". Nem as imagens de santas, encontradas em Canudos, se salvaram: "Marias Santíssimas, feias como megeras".
As longas ausências do lar, sempre a trabalho, continuaram. A jovem cônjuge acabou buscando consolo no cadete Dilermando de Assis. O escritor viajou para a Amazônia, nomeado pelo Barão do Rio Branco para chefiar a Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira com o Peru. Partiu a 13 de dezembro de 1904. Regressou 13 meses depois.
Pesadelo
Passou semanas sem receber notícias da família. Na Amazônia tinha pesadelos. Era obrigado a dormir com uma vela acesa, sempre próxima ao corpo, tanto que, certa vez, chegou a queimar os lençóis, pois era perseguido pelo espectro de uma mulher, que ora entrava pela janela, ora pela porta do quarto, de acordo com o escritor Medeiros e Albuquerque.
No regresso encontrou a mulher grávida de dois meses. O bebê nasceu em julho. Sobreviveu somente uma semana. Em 1907, em novembro, nasceu mais um filho. Também não era seu. O pai, novamente, era Dilermando (mesmo assim registrou no seu nome e dizia que "era uma espiga de milho num cafezal"). O caso era público. A mulher não suportava mais suas viagens. As brigas eram constantes. E vinham desde os primeiros anos do casamento.
Em carta ao amigo, o poeta Vicente de Carvalho, em fevereiro de 1909, seis meses antes da tragédia da Piedade, escreveu: "Sinto que vou escorregando por uma metafísica horrorosa abaixo, e cedendo ao declive não sei onde irei parar". Insatisfeito com os rumos da República, humilhado pelos dilemas de um casamento fracassado e receoso das consequências de uma separação, com a saúde piorando a cada dia, sempre com problemas financeiros e, principalmente, sem condições de escrever o tão sonhado livro sobre a Amazônia, a manhã chuvosa de 15 de agosto de 1909 pode ter sido a sua libertação, de tantos fardos, de tanta angústia.
No mesmo dia, um domingo, foi publicada uma longa entrevista que deu para Viriato Corrêa. Não chegou a ler. Logo cedo se dirigiu ao bairro da Piedade, para a casa de Dilermando de Assis, onde sua mulher tinha passado a noite. Foi para matar ou morrer. Mas queria morrer.
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