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sábado, 5 de setembro de 2009

Lançamento


Voltado principalmente para estudantes e professores do ensino médio em diante, o Euclides da Cunha site visa proporcionar ao visitante uma noção da abrangência da obra de Euclides e do euclidianismo. A ideia é abordar todos as dimensões de Euclides da Cunha e produzir um conjunto de referências bibliográficas e iconográficas para estudantes e estudiosos. Em seções como obras de Euclides, o visitante pode fazer download da obra do autor. Já em dissertações e teses é possível conferir os comentários do organizador e consultar as dissertações e teses produzidas sobre Euclides e o euclidianismo desde 1972 até hoje.
O site, no ar desde 1996, foi relançado em 2009 com novo projeto gráfico e estrutura de navegação.

O lançamento oficial acontecerá durante a programação do Salão de Literatura de Cordel, realizado em 19 de setembro, 19h, na Biblioteca Monteiro Lobato, Rua João Gonçalves, 439 Centro, Guarulhos.

Histórico e breve explanação sobre o projeto, iniciado em 1996, ocorrerão no Seminário 100 anos sem Euclides (sala 2, 27 de setembro de 2009, 14 às 16h).

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Conferência, parte 3.1

Euclides e os sertões

Fala o conferencista brevemente sobre a obra máxima do cantagalense Euclydes

Muito se tem escrito sobre Euclydes e sua obra, especialmente aquela com que premiou ele a literatura universal: OS SERTÕES, tinta bastante foi derramada em louvor a esse monumento, que completará, no dia 2 de dezembro de 2009, cento e sete anos de leitura.

(...)

Estudamos, lemos e relemos trabalhos de críticos, assistimos conferências, participamos de debates e concluímos não ser fácil ou, com outras palavras, ser difícil, dificílimo, em oportunidades como esta, surpreender os ouvintes com alguma coisa nova em torno do nosso co-estaduano e de OS SERTÕES  já traduzido para o espanhol, o alemão, o italiano, o francês, o sueco, o dinamarquês, o inglês, o chinês, o japonês, o holandês, o russo.

(...)

Finalmente, na silenciosa Fazenda da Saudade realizamos, mesmo sem a compreensão necessária, sem a capacidade suficiente (esta ainda nos falta), a leitura de OS SERTÕES, tido como um dos documentos intelectuais mais altos da América; o de maior fundo humano e de mais pungente e bela forma literária (...).

A  TERRA, capítulo  inicial, preenche cinqüenta e duas páginas com descrições fantásticas. Investigando-as, constatamos, de imediato, um quadro magnífico, impressionante, contendo episódios alegres e tristes e concluímos que a delicadeza do pincel de Pedro Américo não nos ofereceria melhor, ou semelhante como aquele atentamente contemplado do alto do Monte Santo, por Euclydes, registrado a páginas vinte e quatro: “Nada mais dos belos efeitos das desnudações lentas, no remodelar os pendores, no despertar os horizontes e no desatar – amplíssimos – os gerais pelo teso das cordilheiras, dando aos quadros naturais a encantadora grandeza de perspectivas  em que o céu e a terra se fundem em difusão longínqua e surpreendedora de cores...(Laemmert & C. Editores, 2ª. Ed. 1903).

Victor Meirelles [Ligado ao Romantismo brasileiro, ocorrido na segunda metade do século XIX, o pintor Victor Meirelles ganhou notoriedade a partir da década de 1870, ao lado de Pedro Américo e Almeida Júnior, fonte: wikipédia] também não pincelaria um panorama com tanta venustidade, ainda que volvendo, qual Euclydes, o olhar “para os céus, sem nuvem! O firmamento límpido arqueia-se alumiado ainda por um sol obscurecido de eclipse”. 

Possivelmente conhecia esta dissertação belíssima o porta-voz da Academia Brasileira de Letras, Silvio Romero, para afirmar, ao abrir-lhe as portas da imortalidade: “
Estudaste a terra, Sr. Dr. Euclydes da Cunha, estudastes a terra, sua organização, seus aspectos, sua flora, seu clima, seus padecimentos, e tomastes nas mãos a mor porção dos fios invisíveis com que ela prende o homem e o faz à sua imagem e semelhança.”

(...)

Euclydes sempre se mostrou um eterno simpatizante da natureza. Concluiu que aquela noção abstrata da pátria era fascinante, capaz de consolar os que se afastam de seu convívio residencial tranqüilo,  expondo-se às batalhas perigosas.

(...) 

A natureza era-lhe o enlevo do coração, percepcionou Coelho Neto. Quando descreve a seca – constatamos –, é  rigoroso, mas a tragédia apontada desaparece diante dos recursos estilísticos do primoroso artista, com sua facilidade inimitável de arquitetar expressões. A tragédia da seca horroriza; todavia, a impressão que nos fica, mais acentuada, não é a de pavor. É a impressão confortadora de ter encontrado um estilista que narra episódios tristes sem nos deixar acabrunhados, porque consegue temperar a rusticidade de alguns acontecimentos com a chama viva, crepitante, de um estilo em variações esplendentes. 

Vemos a seca, descrita por Euclydes, nitidamente, não em tela, mas no original; não através de lentes, e sim da leitura fascinante, graças à pena delgada, maleável, do artista genial, cuja perfeição chega ser sublime.

E caminhemos para a segunda parte do livro: O HOMEM. Maior número de páginas trata do assunto. Cento e trinta, precisamente. A complexidade do problema etnológico no Brasil; a gêneses dos jagunços; o sertanejo; Antônio Conselheiro, são temas que reclamam leitura sem pressa.

A LUTA – terceira parte, está enfeixada em trezentas e cinqüenta páginas outras, numa linguagem igualmente bela.  Na introdução do livro CANUDOS – diário de uma expedição, 1959), Gilberto Freyre afirmou que Euclydes foi  “um escritor adiantadíssimo para o Brasil de 1900; escritor fortalecido pelo traquejo científico, enriquecido pela cultura sociológica, aguçado pela especialização geográfica.
 
Esse Euclydes que, quase sempre viveu isolado, afastado do conforto, dos amigos, das bibliotecas, sem permanência prolongada nos recantos por onde passou; não esquentava lugar. Teve, porém, recursos armazenados em sua inteligência para produzir tanto.  

Conferência, Parte 2

Nem todos os homens só são grandes depois de sua morte

Nessa segunda parte, em continuidade à cronologia, Edmo Lutterbach tece comentários importantes sobre nosso autor.
            
Neste ano 2009 é celebrado o centenário de morte de Euclydes; e o filho daquela herdade ainda é citado no meio cultural brasileiro e de outros pólos. Sua reputação, como escritor, atravessou fronteiras e conquistou o respeito de intelectuais de vários Continentes. Seu nome imortalizou-se. Pouquíssimas vidas têm ensejado tantos estudos quanto à sua, num período de mais de cem anos. Mais de cem, dizemos, porque foi em 1897 que Euclydes apareceu no cenário das letras, publicando artigos no jornal O Estado de São Paulo, (o primeiro, em 14 de março e o segundo, em 17 de julho), sob o título “A Nossa Vendéia”.

Mudou de residências, percorreu municípios, atravessou divisas municipais e estaduais, sem pouso demorado, enfrentando dificuldades sérias. Venceu-as; e por sua luta, coragem e capacidade, tornou-se escritor de renome. Se teve infância, juventude e mesmo mocidade infeliz, um futuro triunfante o aguardava. Conhecido se tornara aos 22 anos, no surpreendente episódio do desfile da Escola Militar da Praia Vermelha; exsurgiu aos 31, como repórter de Canudos; notabilizou-se aos 36, recebendo aplausos da elite intelectiva do país, com a publicação de Os  Sertôes  – livro que o elegeu para a jovem Academia Brasileira de Letras, com apenas cinco anos de funcionamento, instalada em 20 de julho de 1897; e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Instituição já sexagenária à época, pois criada em 1838.

Antes dos 39 anos projetara-se como Chefe de uma importante e delicadíssima missão: a do Alto Purus. Ascendeu mais: em 1907, quando circularam seus livros CONTRASTES E CONFRONTOS  e  PERU VERSUS  BOLÍVIA e  nos exames do  Ginásio Nacional, em 1909. A nossa fascinação por Euclydes da Cunha nos levou à leitura do que ele produziu e de tudo a seu respeito publicado, foi dito. Não está vinculado aos laços que poderíamos chamar de conterraneidade; nossas atenções voltam-se constantemente para Euclydes e para a herdade onde ele abriu os olhos, local em passamos a nossa infância e parte da adolescência – a Fazenda da Saudade –, “recanto de nome poético, impregnado de sentimento bem brasileiro”, na lúcida definição de Moisés Gicovate.

Aquele local foi o nosso mais encantador Olimpo e com ela sempre sonhamos. Lá conhecemos o Euclydes poeta, através de Ondas, poesias escritas por volta de 1883, quando o registro de nascimento do aedo acusava dezessete anos. 

Naquele retiro modesto, percorremos as 260 páginas de CONTRASTES E CONFRONTOS, (a íntegra desses textos pode ser encontrada no sítio domínio públicodesde  “Heróis e bandidos”, até  à “civilização”, ultimando a leitura, tão maravilhados quanto Pereira Sampaio, notamos que “sua prosa tem ar duma conversação erudita, mas familiar, ponderada e concomitantemente espontânea; daí o agrado da leitura que, a espaços, chega ao encanto.”

Chegamos a CANUDOS – Diário de uma Expedição e com semelhante interesse tivemos sob os olhos os artigos escritos no período – 7 de agosto a 1° de outubro de 1897. Não foi menor a emoção.

Abrimos, em seguida, À MARGEM DA HISTÓRIA [ - - Famoso e desempregado em 1904, Euclides da Cunha foi nomeado chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus. Após percorrer uma parte da Amazônia, pretendia escrever um livro intitulado Um paraíso perdido. Através da análise dos "ensaios amazônicos", dos relatórios técnicos, da correspondência pessoal e das anotações de leituras. A morte, em forma de drama passional, no ano de 1909, chegou antes que fosse concretizada a sua pretensão, e "os ensaios amazônicos são o aspecto menos conhecido de sua obra. Encontram-se dispersos em artigos e entrevistas de jornal, em crônicas e prefácios, em sua correspondência particular e oficial, além dos relatórios técnicos da viagem. Tudo isso forma a compilação À margem da história, na íntegra pelo sítio domínio público - -],  ensaio do qual Euclydes conheceu apenas as provas tipográficas. Recebeu-as ele no dia 24 de julho de 1909, e as devolveu no dia 25, revistas, muito perturbado com a nova grafia; e não a viu publicada, o que ocorreu só após sua morte. É livro esplêndido. Adorna, do incipit ao explicit, isto é, do princípio ao fim.   

Em “Impressões gerais” nos deixa extasiados, tão logo  descobrirmos o asserto do geólogo-geógrafo, quanto à Amazônia, diz ele, “talvez a terra mais nova do mundo, consoante as conhecidas induções de Wallace e Frederico Hart. Nasceu da última convulsão geogênica que sublevou os  Andes, e mal ultimou o seu  processo  evolutivo como as várzeas quaternárias que se estão formando e lhe preponderam na topografia instável”.  

(...)  

Avançamos: ao  entrar  nos “Rios  em  abandono”, ficamos  arrebatado, qual “o aventureiro romântico e o sábio precavido”.  Nosso entendimento, com a belíssima descrição do que fora observado naquele solo imenso, que impressiona e desafia as pesquisas dos geógrafos, dilatara-se como a visão cosmogênica do estilista, pois pareceu-lhe que, na Amazônia, o homem “é ainda um intruso impertinente, chegou sem ser esperado nem querido, quando a natureza estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão.”  

Alcançamos “Um clima caluniado” e, com disposição atrevida, chegamos ao ponto último da obra. Só uma coisa nos faltou: Ânimo para fechá-la. E sob o impacto de tanta beleza, tentamos estabelecer confrontos, abrindo o Inferno Verde, de outro notável engenheiro: Alberto Rangel [Alberto do Rego Rangel nasceu no Recife em 29 de maio de 1871. Faleceu em Nova Friburgo (RJ) em 14 de dezembro de 1945. Obras principais: Fora da forma, opúsculo (Rio de Janeiro, 1900); Inferno verde: cenas e cenários do Amazonas, com prefácio de Euclides da Cunha (Rio de Janeiro, 1908); Sombras n’água (Leipzig, Alemanha, 1913); Quando o Brasil amanhecia (fantasia e passado) (Lisboa, 1919); Livro de figuras (Tours, França, 1921); Lume e cinza (Rio de Janeiro, 1924); Textos e pretextos (Tours, 1925); Papéis pintados (Tours, 1928); Fura-mundo: contos (Tours, 1930), textos do autor no sítio Call.org].  Repassando as vinte e duas páginas iniciais, contendo o prefácio de Euclydes, salienta o primeiro crítico da obra, que  a “Amazônia, ainda sob o aspecto estritamente físico, conhecemo-la aos fragmentos.”. E adita: “Escapa-se-nos de todo a enormidade que só se pode medir, repartida; a amplitude, que se tem de diminuir para avaliar-se; a grandeza que só se deixa ver, apequenando-se, através dos microscópios; e um infinito que se dosa a pouco e pouco, lento e lento, indefinidamente, torturadamente”.  Afirma, sem temor de revide, que “a inteligência humana não suportaria, de improviso, o peso daquela realidade portentosa. Terá de crescer com ela, adaptando-se-lhe para dominá-la. Atesta-o o exemplo de Walter Bates – continua –, que ali assistiu mais de um decênio, “realizando descobertas memoráveis, mas sem sair da estreita listra litorânea desatada entre Belém e Tefé”, surpreendendo os Institutos da Europa, conquistando a admiração de Darwin, sem esgotar o “recanto apertadíssimo em que se acolhera. 

Não vira a Amazônia, viu apenas mais que os seus predecessores”.  Mas é natural, tranqüiliza-se. A terra ainda é misteriosa. O seu espaço é como o espaço de Milton [John Milton (9 de dezembro de 1608 - 8 de novembro de 1674) foi um escritor inglês, um dos principais representantes do classicismo de seu país, e autor do célebre livro O Paraíso Perdido, um dos mais importantes poemas épicos da literatura universal --- Fonte: Wikipédia]: esconde-se em si mesmo. Vai além: Anula-a a própria amplidão, a extinguir-se, decaindo por todos os lados adstrita à fatalidade geométrica da curvatura terrestre, ou iludindo as vistas curiosas com o uniforme traiçoeiro de seus aspectos imutáveis. Para vê-la, adverte o prefaciador, deve renunciar-se ao propósito de descortiná-la. Tem-se que a reduzir, subdividindo-a, estreitando, e especializando, ao mesmo passo, os campos das observações. 

No prólogo anunciado, Euclydes descreve o que leu no trabalho de Rangel e ele próprio viu, naquela “terra misteriosa”, onde o homem “é estrangeiro, embora pisando em terras brasileiras”, passando ao papel, as impressões captadas.  

Um sábio no-la desvendaria – são palavras suas –,”sem que nos sobressalteássemos, conduzindo-nos pelos infinitos degraus, amortecedores, das análises cautelosas. O artista atinge-a de um salto, desvendando-no-la na esplêndida nudez da sua virgindade portentosa.  Não se esqueceu de advertir: é a terra moça, a terra infante, a terra em ser, a terra que ainda está crescendo. Agita-se, vibra, arfa, tumultua, desvaira. Realmente, “a Amazônia é a última página, ainda a escrever-se, do Gênesis”.

(...)

(segue a parte final, sobre os sertões)