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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Euclides à mostra

Fonte: Prosa e Verso

Vários dos lançamentos sobre Euclides da Cunha previstos para este ano não chegaram às prateleiras a tempo do centenário de morte do escritor. Felizmente, os organizadores das exposições dedicadas ao autor foram mais diligentes do que os editores. “Euclides da Cunha, uma poética do espaço brasileiro” abriu anteontem na Biblioteca Nacional (acima, foto do acervo da BN que mostra o homenageado em seu escritório), e “Euclides, um brasileiro” será inaugurada na quinta-feira, dia 20 de agosto, na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Ambas, como já dizem os títulos, exploram a ligação do escritor com o Brasil. Marco Lucchesi, curador da exposição da Biblioteca, explica que procurou enfatizar a comunicação da obra de Euclides com a cultura nacional.

— Tentamos desmistificar a ideia do Euclides como uma espécie de pedra belíssima, brilhante, mas que não dialogaria com o que está antes ou depois dela. Nos textos dele, há uma entrada muito importante de uma polifonia brasileira, das vozes dispersas do Brasil. Essa presença da fala popular insere Euclides numa linhagem literária que começa com o Machado de Assis de “Dom Casmurro”, em que Bentinho registra o pregão de um vendedor de cocadas, e continua depois com Guimarães Rosa — diz.

Entre as 130 peças reunidas na exposição — que se divide em três partes, sobre Canudos, os escritos amazônicos e a biografia — estão exemplares da primeira edição de “Os Sertões” com correções no texto feitas a mão pelo autor. Usando $pequena lâmina, Euclides raspou incorreções de todos os 1.200 exemplares da primeira edição, fazendo no total 160 mil emendas.
O poeta Alexei Bueno é o responsável pela exposição que será aberta quinta-feira na ABL. Obcecado desde a juventude pela Guer$de Canudos, ele trouxe para a mostra vários itens de sua coleção pessoal, como armas, balas, farrapos de bandeira e outros objetos. Ele diz, no entanto, que os itens mais importantes em exibição são os manuscritos, cartas e dedicatórias de livros, entre os $há material inédito.

— São documentos da própria ABL, alguma coisa da Biblioteca Nacional, do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, e, sobretudo, de coleções particulares — informa Bueno, avisando que não há muitas revelações biográficas nesses escritos. — O Euclides era um homem muito sisudo, muito sério, que praticamente não tem anedotário. Os comentários feitos nesses textos são referentes quase sempre à vida literária.

A exposição seguirá o percurso biográfico de Euclides, e tem ainda como destaque a famosa caderneta de apontamentos usada por ele em Canudos, cheia de desenhos, mapas e anotações feitas numa letra microscópica.

Euclides da Cunha ganha nova biografia

Professor Leopoldo M. Bernucci

Fonte: Prosa e Verso

Em setembro a Ateliê Editorial publica “Euclides da Cunha: uma odisseia nos trópicos”, nova biografia do autor de “Os Sertões”. Assinada pelo americano Frederic Amory, professor de literatura e apaixonado desde os anos 60 pela vida e obra de Euclides, a biografia procura atar as pontas e preencher algumas lacunas da breve mas produtiva trajetória do escritor, morto aos 43 anos por Dilermando de Assis, em quem atirara ao confirmar o caso deste com sua mulher, Ana. Para Leopoldo M. Bernucci (ao lado, em foto de divulgação), professor da Universidade da Califórnia (Davis), autor de uma elogiada edição anotada de “Os Sertões” (Ateliê Editorial) e supervisor editorial da nova biografia — seu amigo Amory morreu em fevereiro, pouco depois de fazer a primeira revisão do livro —, o grande mérito do americano foi mostrar Euclides numa “dimensão caleidoscópica”, apresentando ao leitor tanto o sujeito irascível quanto o escritor genial, sem desvincular o homem de sua obra.

Frederic Amory descreve Euclides da Cunha como “um homem impelido por todos os demônios do século XIX — trabalho, obrigação moral, religião (agnosticismo), raça (se não racismo), paixão pela natureza intocada...”. Qual a principal contribuição do trabalho de Amory à (re)construção da figura de Euclides?
É justamente essa mirada em conjunto que ele lança sobre a complexidade individual de Euclides. Em vez de vê-lo em cada compartimento de sua vida, Amory prefere mostrar em dimensão caleidoscópica tudo o que ele foi, como resultado daquilo que ele absorveu na vida, de modo um tanto caótico ou desordenado, resultando num compósito dos mais interessantes. Mas não é só isso. “Euclides da Cunha: uma odisséia nos trópicos” é uma bibiografia verdadeiramente intelectual, na qual Amory nos leva à compreensão do tão incompreendido envolvimento de Euclides com o positivismo e, por primeira vez, à releitura de alguns dos seus ensaios mais desafiantes. Finalmente, Amory procura corrigir algumas falsas impressões e alguns dados historicamente incorretos.

O biógrafo lembra que ao abandonar as ideias positivistas da juventude e abraçar, na maturidade, as teses do evolucionismo, Euclides levou “tintas racistas” para suas análises. Como essa questão deve ser contextualizada? Era um reflexo da ciência da época?
Lamentavelmente Euclides, como outros intelectuais da época, foram fortemente influenciados pelas teorias europeias do evolucionismo, que muitas vezes não se encaixaram na realidade brasileira estudada. Digamos que, por um lado, havia uma necessidade de se utilizar um aparato teórico para dar conta da configuração racial no Brasil e que todas essas teorias eram bastante postiças e forçadas quando aplicadas à nossa realidade. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi desastroso. Por outro lado, Euclides intuía que na nossa sociedade a contribuição africana era culturalmente muito rica e abominava a escravidão como prática social desumana e cruel. Basta ler um poema que Euclides escreveu em 1884, “Cenas da escravidão”, do caderno “Ondas”, quando ele tinha apenas 18 anos, em que ele expressa a sua repulsa por essa aberração. Sem falar que sua admiração por Teodoro Sampaio, como pessoa e cientista, demonstra o elevado grau de respeito pelos brasileiros descendentes de africanos.

Amory situa “Os sertões” em primeiro lugar como um tratado sobre raças e sub-raças brasileiras e, em segundo, como uma narrativa de guerra. Em que medida a formação, a leitura e a admiração pela cultura europeia influenciaram a visão de Brasil moldada por Euclides? Quais os benefícios e quais os vícios dessa análise, se existiram?
O principal benefício dessa discussão foi ter Euclides aberto o campo de debate para a compreensão do problema racial no Brasil. Antes dele, o assunto era relativamente tabu e não continha como ele o apresentou uma formulação sistematizada do ponto de vista teórico. A sua visão do Brasil, repito, teria que passar necessariamente pelo crivo das teorias de Ludwig Gumplowicz que Euclides interpretou, como ele o fez com outros teóricos, à sua maneira e não necessariamente como essas teorias foram formuladas pelo autor de “A luta de raças”. Para a compreensão dos fenômenos psicológicos e também biológicos ligados a Antônio Conselheiro e a sua atuação como líder de massas, Euclides haveria de lançar mão também de um conjunto de ideias provindas de César Lombroso, Henry Maudsley e Krafft-Ebing. Era uma medida prática que, ao longo da sua formação intelectual era acatada sem um questionamento mais profundo dos seus pressupostos básicos ou de sua validez. Mas Euclides não foi o único nem no Brasil, nem mesmo na América Latina. Domingo Faustino Sarmiento já havia incorrido em semelhante gesto na Argentina, meio século antes dele, quando escreveu sua obra “Facundo — Civilização e barbárie”.

O Euclides estilista da língua, dono de uma linguagem rebuscada, pouco à vontade com “frases-monstro”, como lembra Amory, atrapalhou de alguma forma, num primeiro momento, o Euclides historiador e jornalista em “Os sertões”? Em sua opinião, qual o grande legado desta obra?
Na verdade quando o biógrafo fala dessas frases-montro, ele se refere somente à sintaxe que Euclides empregou na escritura de um só livro, “Peru versus Bolívia”. Os ensaios ali contidos destoam, significativamente, em tom, estilo e tema dos demais textos euclidianos, e isto porque houve uma necessidade mais técnica e protocolar de escrever dessa maneira. Num primeiro momento, a crítica que se preocupou também da sua linguagem encontrou-a impraticável e hermética. Outros, viram-na como demonstração de virtuosismo estilístico e a aplaudiram. Os modernistas tiveram quase nenhuma disposição para aceitar esse tipo de linguagem e, finalmente, passados quase cem anos, um reexame desse modo de escrever devolveu essa mesma linguagem para o lugar merecido, o dos discursos imperecíveis. O maior legado de “Os Sertões” é a sua grande capacidade de nos fazer pensar o Brasil como nação heterogênea e de áreas culturais e geográficas ainda problemáticas. Na sua heterogeneidade e dimensão continental, o Brasil parece descuidar ou esquecer de certas regiões ou áreas culturais, dando prioridade a algumas e negligenciando outras. Observe, por exemplo, o descuido que ainda experimentamos na area social e educativa dos estados mais pobres, quando estamos vivendo momentos de grandes avanços econômicos e nos vangloriando de um sistema bancário de primeiro mundo. A pergunta fundamental que Euclides faz em “Os Sertões” e que adquire enorme validade até hoje é a seguinte: de que nos serve todo o progresso alcançado até seus (nossos) dias, relativamente visível na faixa litorânea do país, se o interior, e também alguns setores desse litoral, continuam vivendo na Idade da Pedra?

O impacto de “Os sertões” nos meios literário e acadêmico eclipsou o que Euclides fez antes e depois. Existe uma produção mais “injustiçada”, sobre a qual deveria se falar mais? Ou acredita que o fundamental foi dito?
Penso que sua poesia ficou injustamente relegada durante muitos anos. Ele, que escreveu poemas desde a idade dos 17 anos, sem nunca ter deixado de cultivar esse gênero, foi também muito cauteloso com a divulgação de sua coletânea poética. Muitos de seus poemas nunca foram publicados e não porque a qualidade deixasse muito a desejar. Dos 133 poemas que conhecemos dele até hoje, um grande número ficou desconhecido de seus leitores. Esta lacuna acaba de ser preenchida por nós, eu e um colega, o professor Francisco Foot Hardman da Unicamp, que acabamos de preparar um volume, que está no prelo, de suas poesias intitulado “Euclides da Cunha: Poesia reunida” (Editora da Unesp). Tenho certeza que os leitores da poesia euclidiana se surpreenderão com a diversidade, desenvolutra e qualidade poética dessas peças, muitas delas excelentes e que nos ajudam a entender a trajetória intelectual do escritor.

A tragédia familiar provocou muitas lacunas na biografia de Euclides. Por conta do apagamento proposital da figura de Ana de Assis de biografias escritas nos primeiros anos depois da morte do autor, pouco se sabe sobre sua relação afetiva com a mulher, com os filhos, ou sobre o casamento. O que ainda não está totalmente claro para a compreensão do homem como um todo?
Os dados sobre a sua vida familiar são ainda muito incompletos, e quando não o são tendem a ser imprecisos e a estarem marcados por uma forte dose de subjetividade. “Euclides da Cunha: uma odisséia nos trópicos” procura serenizar os ânimos que sempre aparecem exaltados na maioria das biografias do autor ou de sua esposa. Como qualquer casal com filhos e em crise, a vida conjugal de Euclides com Ana de Assis deve ser vista com muita piedade para os dois. A mentalidade machista dos anos que sucederam a morte do escritor, fez dele um mártir e um herói e dela uma megera. Ora, este tipo de interpretação hoje em dia é insustentável e Amory, a meu ver, tenta corrigir essa distorção, mostrando o drama vivido pelos dois indivíduos e também pelos dois filhos mais velhos.

A biografia de Amory lembra todo o tempo o caráter firme, a honestidade e a retidão de Euclides. Porém não esconde o Euclides irascível, que puxou o revólver algumas vezes para tentar resolver problemas como o barulho incômodo de um bar. Essa personalidade cindida ainda merece novos estudos? É relevante para a compreensão de sua obra?
Sim, esse caráter dúbio de Euclides é um dos pontos mais fascinantes da biografia. Aliás no número deste mês da “Revista de História da Biblioteca Nacional” eu publiquei um breve artigo sobre esta questão. Paradoxalmente, na sua tão curta vida de homem voltado para as ciências houve fortes momentos de irracionalismo, que o fizeram emparelhar-se ao grupo dos gênios invariavelmente vulneráveis, homens que com muito esforço edificaram grandes obras, mas que no fim não conseguiram manter a estrutura de seu lar e evitar os golpes de uma tragédia. Euclides, neste particular, foi a regra e não a exceção. Aliás, ele viveu como um bom escritor romântico toda a sua vida, a despeito da orientação científica dada à ela: viveu intensa e apaixonadamente, sempre no limite, morrendo tragicamente muito jovem.

O senhor comenta que o fato de Amory ser estrangeiro pode ter ajudado a construir um retrato equilibrado e profundo de Euclides. Acredita que o modo como o escritor morreu ainda causa desconforto em historiadores e biógrafos hoje, principalmente com herdeiros de Euclides e Dilermando ainda vivos?
Acho que os primeiros biógrafos de Euclides, como Eloy Pontes, Francisco Venâncio Filho, Sylvio Rabello, Olímpio de Souza Andrade, mantiveram uma relação quase emocional com o autor, algo que eu julgo até natural, dado o fato de que alguns deles foram contemporâneos de Euclides e sentiram no fundo d’alma a tragédia de sua morte. Outros, mais modernos, como Roberto Ventura, Luiz Costa Lima, José Carlos Barreto de Santana e Walnice Nogueira Galvão, ofereceram esboços biográficos do autor que, por adotarem uma perpectiva mais distanciada, temporal e emocionalmente falando, emparelham-se às observações de Amory na sua biografia. Portanto, não se trata propriamente de julgar se a melhor biografia pode ser escrita por um brasileiro ou um estrangeiro, mas sim, do fato de que uma biografia de Euclides, quando realizada por um bom escritor estrangeiro, terá melhores chances de oferecer uma visão desapaixonada de sua vida.

Qual foi o seu papel na organização da biografia? Há quanto tempo acompanha o trabalho de Amory sobre Euclides?
O meu papel nesta biografia foi de mero consultor. Acompanhei o trabalho parcimonioso de Amory durante os últimos dez anos e compartilhei com ele outros momentos ligados à obra de Euclides e não necessariamente à sua biografia. Frederic Amory faleceu em fevereiro passado, momentos depois de haver completado a primeira revisão da tradução de sua biografia, do inglês para o português. A minha função a partir desse momento foi prestar um serviço à memória de um amigo querido e acompanhar o trabalho de revisão da tradução e montagem do texto, com o tradutor e a viúva de Amory, a Profa. Elaine Tennant da Universidade da Califórnia em Berkeley. Finalmente, segui a trilha de estudos percorrida pelo biógrafo desde o início da década de 1980, quando ele fazia parte de um grupo de distintos euclidianistas, Rosaura e Augusta Escobar, Oswaldo Galotti, Moisés Gicovate, que frequentavam assiduamente a Semana Euclidiana em S. José do Rio Pardo.

A última entrevista de Euclides da Cunha

De prosa e verso.

Por volta das 11h do dia 15 de agosto de 1909, Euclides recebeu em sua casa, na avenida Atlântica, em Copacabana, Rio de Janeiro, o escritor, também jornalista, Viriato Correia, para uma entrevista a ser publicada pela “Illustração Brazileira”. Era domingo, “era sol e era azul”, informa Viriato. Mais do que uma entrevista, o encontro foi uma conversa, um diálogo entre duas pessoas inteligentes, dois literatos de alta cepa, que já haviam se encontrado e proseado muito “sobre livros e sobre arte” na rua do Ouvidor — certamente na Garnier. Durante algumas horas tratou-se sobretudo de “Os Sertões”, do processo de sua confecção — estaria se inaugurando (mais um pioneirismo de Euclides, sempre antecipador) o hoje bastante praticado making of? Almoçaram, mas não saíram “descalços para passear na praia”, como sugerira Euclides (acima, em foto de acervo da Academia Brasileira de Letras) quando na Ouvidor convidara Viriato a ir “um domingo lá em casa” — não saíram porque Euclides anunciou ter um compromisso. Despediram-se, Viriato levando com ele as preciosas anotações, Euclides partindo para o derradeiro ato de sua vida, naquela tarde daquele mesmo dia. O sol e o azul do dia transformaram-se à noite numa terrível chuva, que inundou a cidade, que fez-se cinza e negra — assim como o Brasil... (apresentação de Mauro Rosso, autor do livro “Escritos de Euclides da Cunha: política, ecopolítica, etnopolítica”, que sairá em setembro pelas editoras PUC/Loyola, para a última entrevista concedida por Euclides da Cunha. A entrevista será publicada no livro).

É ali, em Copacabana, ao rumor das ondas, numa casa batida pelo vento do mar e de janelas abertas para o azul do oceano, que Euclides da Cunha vive a sua existência extraordinária, do mais completo e do mais artista historiador brasileiro.
Uma tarde, em que à rua do Ouvidor, falávamos de livros e de arte, ele me bateu amigavelmente nos ombros:
— Vai um domingo lá em casa, que diabo! Conversamos, almoçamos e depois sairemos descalços, a passear na praia.
Desde as primeiras páginas de Os Sertões que eu comecei a ter pelo historiador de Canudos a mais cega e comovida admiração. Não era admiração apenas, era mais — adoração — adoração por aquele escritor, que, imprevistamente, surgia onipotente e supremo, para o espanto de uma língua e de uma raça, por aquele narrador de guerra que de tão alto se punha para historiar todos os problemas da luta, pelo artista ruidoso e formidável, que abria uns novos painéis de arte robusta e essencialmente nossa, pelo paisagista incomparável. evocador, como nenhum outro, gigantesco, resplandecente, como ninguém.
Foi num domingo que lá estive. Era sol e era azul. A casa estava com as janelas abertas para o vento do mar, rumorejante da alegria das ondas, que, na areia se esfarelavam toda lavada do sol daquele domingo álacre.
Euclides é um simples como nunca vi assim. Quem o encontra na rua, magro, o rosto carregado, numa profunda concentração, não acredita o que pode haver de alegre, carinhoso e desprendido naquela alma. Quem devora as páginas rutilantes de “Os Sertões” imagina que ali está um escritor de sossego e método e que a obra foi feita com o maior dos métodos e o mais regular dos sossegos.
Nada disso. Nem uma coisa nem outra. Euclides nunca “se assentou”.
A sua vida tem sido uma vida errante, ora aqui, ora ali, numa comissão, noutra, as malas sempre prontas, os livros dentro das malas. Ora em Minas, em São Paulo, no Amazonas, no Acre, em Canudos; de lápis na mão, enchendo de algarismos os livrinhos de notas, como engenheiro.
Ao que ele conta, desde estudante que o seu sonho é pousar; ter uma vida pacata, a sua casa, tudo em ordem, os seus livros arrumadinhos, a hora certa de começar o trabalho, a hora certa de terminá-lo, e hora certa de dormir. E nunca teve. A sua existência tem sido revolta, sem assento em lugar nenhum, irregular, imprevista, incerta, nômade, uma hora aqui, outra onde o diabo perdeu as botas, sempre carregado de trabalho, trabalhando noites além, um dia no costado de um cavalo, percorrendo sertões, outro medindo terras, outros suando, entre o fragor dos martelos, numa ponte que se constrói. Um horror!
— Continuo a ser o estudante que era. Tudo à revelia.
Ao entrar-se em casa de Euclides, a gente fica à vontade. Não parece que se está em frente de um dos máximos prosadores de uma língua, mas sim de um rapaz amigo, de um velho camarada com quem se viveu larga quadra, de um companheiro que nos fala de suas coisas como se fossem nossas, uma dessas criaturas que vão, logo à primeira vista, espavorindo a cerimônia, e a quem a gente se sente mal de dar até o tratamento de “senhor”.
E o que é curioso, o que mais ressalta e o que mais comove, é a profunda modéstia de Euclides. Isso dele ser o mais completo dos nossos historiadores, o artista extraordinário, o escritor surpreendente, o paisagista formidável, isso, somos nós aqui fora que o dizemos. Ele, ele é que não está convencido disso. A sua modéstia é orgânica. Os sertões para ele nada tem de extraordinário. É um livro como outro qualquer.
Aquelas páginas assombrosas cheias daquele fragor e daquela comburência de frase, daqueles painéis faustosos, que nos fazem vibrar e arder de entusiasmo e de orgulho, para ele são páginas rasteiras, cobertas de defeitos. De defeitos!
— De defeitos, sim! — confirma Euclides, muito espantado de ninguém ter dado por isso. — Aqui estão eles. Na nova edição de “Os Sertões” fiz seis mil emendas. Não se diga que sejam erros de revisão, são defeitos meus, só meus.
E mostrou-nos o livro, onde em cada página aparecem pelo menos três remendos.
— Hei de consertar isto por toda a vida. Até já nem abro Os sertões porque fico sempre atormentado, a encontrar imperfeições a cada passo.
É ao almoço, numa sala para o mar, enquanto o vento da praia agita os guardanapos, que Euclides me conta como escreveu “Os Sertões”.
Estava por esse tempo em São José do Rio Pardo, reconstruindo uma ponte. Era um trabalhar sem conta, noite e dia, ele ali a dirigir as obras, sempre à frente, no tumulto dos operários.
A ponte construída por outros engenheiros havia uma noite desabado desastrosamente e o governo de São Paulo convidara-o a reconstruí-la.
A obra era da mais alta responsabilidade, principalmente depois do desastre. Euclides, por amor próprio, em respeito à sua carta de engenheiro, estava sempre à tese de tudo. Morava numa casinha a dois passos das obras e passava os dias, em cálculos, a lutar com os xx da matemática. Foi aí que veio a ideia de escrever “Os Sertões”.
Um livro daquele peso toda gente tem a impressão de que o seu autor escreveu-o cercado de volumes para consultar. Não foi assim. Euclides não tinha um livro consigo, nem um volume de geologia. Nada.
Mas assim mesmo atirou-se. A todo o momento tinha que levantar-se, para vir ver a marcha do trabalho da ponte, que se ia erguendo, quando estava num trecho, desses com que os escritores se torturam e dão um pedaço de vida para acabá-Io, eis que um operário vinha chamá-lo para resolver uma dificuldade. Apesar disso “Os Sertões” iam caminhando. À tarde o juiz de direito, o presidente da Câmara Municipal, mais duas ou três pessoas de Rio Pardo, reuniam-se à casinha de Euclides, para ouvir o folhetim.
Ele lia então as tiras que havia escrito durante o dia. Dentre as pessoas que vinham ouvi-lo havia um paulista conhecedor dos sertões; um desses talentos fulgurantes, estupendos que nunca são coisa alguma porque nunca entraram numa escola. Esse homem tinha cócegas de escritor. Tinha lá os seus versos, as suas tiras de papel cheias de rascunhos literários. Euclides da Cunha falou que ia descrever o estouro de boiada, dos quadros mais épicos e mais sinistros dos campos e matas brasileiros.
Nunca havia visto o estouro; sabia-o apenas por informação, por ouvir contar. O paulista vira diversos, estava “cansado de ver”, dizia ele.
— E se seu doutor quiser, seu doutor escreve, eu escrevo também e vamos ver quem é que faz mais perfeito.
Euclides teve, deveras, medo daquela proposta. Atirou-se à descrição, receoso de ser derrotado. No outro dia, à tarde, o matuto apresentou-se corajosamente, com as suas tiras de papel. O juiz de direito, o presidente da Câmara, as duas ou três pessoas de Rio Pardo esperavam o duelo.
— Leia!
— Leia o doutor primeiro!
Euclides leu. Leu aquela descrição incomparável, assombrosa, que nós todos conhecemos n’ “Os Sertões”. E ao terminar voltou-se para o homem.
— Leia!
— Qual, nada seu doutor. Olhe ali.
No chão, as tiras do pobre homem estavam aos pedacinhos, esfrangalhadas.
— Eu vou então ler alguma coisa depois disso?! Não é possível, não é possível, que o senhor não tenha visto pelo menos cem “estouros de boiada”.
E no meio da barulhada infernal dos martelos, das travas de ferro, dos foles, “Os Sertões” caminhavam. Quando a ponte ficou concluída, o livro estava concluído também. Ninguém sabia nesse tempo que Euclides era escritor. Ele apenas se havia mostrado no “Estado de S. Paulo”, numas crônicas, ligeiras, com as iniciais. Tinha medo da publicidade. Mas resolveu a publicá-lo. O juiz de direito, o presidente da Câmara de Rio Pardo, o matuto do “estouro” haviam-lhe dito que o livro era bom. Foi a São Paulo e levou-o ao “Estado”, para publicá-lo em folhetins. O maço de tiras era enorme. Isso parece que espantou. Seis meses depois, ao voltar a São Paulo e ao subir à redação do Estado, lá encontrou, num canto, o seu embrulho de tiras, empoeirado. Pô-lo debaixo do braço, e veio ao Rio de Janeiro. Não conhecia aqui nenhum escritor, a não ser Lúcio de Mendonça. Lúcio de Mendonça procurou-lhe editor. O escritor era desconhecido e o volume de tiras assustava. Os editores torciam o nariz.
O “Jornal do Commercio” não quis a obra para folhetins. Afinal o velho Masson da casa Laemmert, depois de muito pensar e de muito vacilar, disse que ficava com o rodo de tiras. Entra o livro no prelo. Meses depois Euclides, que por essa feita estava em Lorena, ao chegar à Companhia Tipográfica, à rua dos Inválidos, abrindo ao acaso um volume, lá encontrava um a com uma crase intrusa, adiante uma vírgula de mais, etc., etc. Ele estava nesse tempo atacado de uma neurastenia profunda. Aquela crase, aquela vírgula, aqueles outros erros, pareceram-lhe grandes blocos de pedra, que vinham atacar o seu nome. Que horror! E a ponta de canivete (parece mentira, mas verdade), em dois mil volumes, Euclides raspou oitenta erros. Foram cento e sessenta mil emendas! Levou dias e dias nessa trabalheira gigantesca. Os operários da tipografia estavam assombrados com aquilo. Ele passava os dias, as noites curvado sobre os volumes, a raspar com a pontinha do canivete. Só acabou na véspera da chegada do barão do Rio Branco, em dezembro de 1902. O livro ia ser posto à venda no dia seguinte. Um estranho pavor se apoderou de Euclides. Tinha certeza de que a obra ia ser um desastre. E pediu ao editor que retardasse a venda para daí a três ou quatro dias. E tocou-se para Lorena.
O seu pavor tinha crescido estupendamente, tanto que, chegando a Lorena à meia-noite, às três da manhã estava de viagem. Para onde? Sabia lá! O que ele queria era fugir, esconder-se no fim do mundo, não ver mais ninguém, rasgar o livro, não ter notícias do desastre. E andou oito dias a cavalo pelo interior de São Paulo, sem destino. O que lhe passava pelo espírito era curioso: via-se inteiramente achatado, a sua reputação de engenheiro por terra, o seu nome espatifado nas crônicas dos jornais.
— Para que me fui meter eu nisso, senhores!
Ao chegar aos pousos do sertão, onde os sertanejos vinham recebê-la ao terreiro, para hospedá-lo, as reflexões que lhe acudiam eram interessantes.
— Ora veja, dizia, esses homens me tinham em tão boa conta!
Ao fim de oito dias sentiu saudade da família. Do livro não tinha a mais vaga notícia. Mas via-se servindo de troça nas rodas literárias da rua do Ouvidor, o editor desesperado com a bucha, a mandá-lo para o inferno. Chegou a Taubaté, de volta, empoeirado, à tarde. Depois da chegada do trem do Rio, seguia um expresso para Lorena. Enquanto esperava o expresso, foi comer alguma coisa, no restaurante da estação. Chega o trem do Rio. Uma multidão de passageiros salta e corre para o restaurante. Entre eles um homem alto, barbado, de guarda-pó e um livro debaixo do braço. Euclides tem um sacolejão. Se não se enganava tinha visto Os sertões, sob o braço do homem. Parece que foi alguma mola que o fez levantar-se. Chegou-se ao tipo, sacudido de emoção:
— O senhor pode deixar-me ver esse livro?
O senhor fitou-o, mediu-o e sério, desconfiado da má vontade, estendeu-lhe mudamente o livro, sem largá-lo. Era “Os Sertões”.
— Obrigado.
O seu desejo foi atirar-se ao sujeito e abraçá-lo. Mas voltou para a sua mesa e pôs-se a pensar e repensar. O livro estaria fazendo sucesso? Teria sido bem sucedido? Os jornais o que estariam dizendo? E a figura do passageiro de guarda-pó surgia-lhe à imaginação. Aquele sujeito não tinha cara de gostar de ler. Se estava lendo seu livro é porque estava gostando. Quem sabia se aquilo não era apenas ostentação, vaidade de mostrar-se aos outros passageiros do trem como leitor de um livro grosso! Poderia ser! Mas como foi que ele comprou o livro? O volume custava dez mil-réis. Só se dão dez mil-réis por um livro, quando se sabe, ou se ouve dizer, que esse livro é bom. Se aquele homem comprou, é porque ouviu dizer, ou por um amigo ou pelos jornais. Mas podia ser que aquilo fosse um presente. Podia. E o sujeito estaria gostando? Se ele não estivesse, ao saltar do trem para tomar um refresco na estação, deixaria o volume no seu banco. Se o trouxe debaixo do braço era porque o livro lhe era precioso. Mas também podia ser que fizesse aquilo para que não lho roubassem. Mas um livro ninguém se importa que carreguem com ele.
E nesse torturar de espírito, Euclides chegou a Lorena. Esperavam-lhe jornais e cartas. Cartas do editor. Do editor havia duas. Abriu uma por acaso, por felicidade era a segunda. Nessa carta, o editor dizia que estava assombrado com a venda do livro e que em oito dias estava quase esgotado um milheiro; contava-lhe do sucesso, das críticas dos jornais, do barulho que a obra estava fazendo. A outra carta, a primeira, era esmagadora. O editor confessava-se-lhe redondamente arrependido de tê-lo editado, dizia que não havia vendido um único volume e mais: que, sendo cada volume pelo preço de dez mil-réis, mandara oferecer aos “sebos” da rua de São José por cinco e nem um só aceitara.
— Se eu tivesse lido essa carta em primeiro lugar, parece que morreria, conclui Euclides, sorrindo.
É essa a história da obra máxima da nossa literatura. A profunda modéstia de Euclides é orgânica. Com a publicação de “Os Sertões”, quem mais se espantou foi ele. Nós nos espantamos de ver que a nossa raça já tinha um escritor, que atingira ao mais alto grau da perfeição. Ele se espantou ao saber que esse escritor era ele.

Viriato Correia, em 1909.

Fonte: Blog do Prosa e Verso