I
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.
II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...
Informações, ideias e notícias sobre o projeto que dá nome ao blog em homenagem ao escritor brasileiro Euclides da Cunha. Além disso, este espaço tem o objetivo de divulgar atividades relacionadas à propagação da educação e da literatura, assim como desejava o autor de "Os Sertões".
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Euclidianas 7
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Euclidianas 6
Cantou o galo de Cantagalo
e o Brasil encantado
logo desencantou
com o cantar encantador
do Galo de Cantagalo.
Um outro Brasil nasceu
da história que escreveu
da luta que descreveu
da terra que percorreu
do homem que enalteceu
o galo de Cantagalo.
Encantado cantador
cantou sem desencanto
cada canto do Brasil,
cada canto do sertão:
sertão seco,
sertão verde,
ser-tão gente,
ser-tão bicho,
ser-tão fogo,
ser-tão água,
ser-tão Brasil...
Cantador de Cantagalo
canta galo encantador!
canta a caatinga,
canta a floresta
canta o vaqueiro e o aboiador.
Rasga cantador
rasga os desertos do Brasil:
desertos de homens,
desertos de terra,
desertos de paz,
desertos de pão
desertos de luz.
Profeta solitário,
que pregaste no vazio
e abriste aceiros,
e tocaste boiadas,
e colheste poema,
e com lápis e pontes
escreveste o futuro...
E assim ajuntaram-se os brasis,
e assim construiu-se o Brasil.
José Gonçalves.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Euclidianas 5
Tu és filho de nossa terra
Elevador de nossa história
Fruto da sabedoria
Pai da Cultura
Letra de nossa poesia
Desenvolvimento de nossa cidade
Memória de nossas gerações
Honra de seus conterrâneos
Lápis para o nosso papel
Saudade de nossos corações
Estrela de nosso céu
Sobrenome de nosso nome
Inspiração de nossos trabalhos
Impulso de nosso desânimo
Exemplo de patriotismo
Ápice de nossas pesquisas
Ponto relevante em nosso mapa
Marco de nossa Cantagalo
Marco de nosso Brasil!
por Matheus Muniz Guzzo, jovem cidadão de Cantagalo, cidade-berço do escritor.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Euclidianas 4
"AS CATAS" (Euclides da Cunha)
Aonde, deslumbrantes,
Da Indústria e da Ciência as triunfais
Vozes se erguem em mágico concerto;
Eu, não; eu prefiro antes
As catas desoladoras do deserto,
Cheias de sombra, de silêncio e paz...
Eu sei que à alma moderna _ alta e feliz,
E grande, e iluminada,
Não pode sofrear estes febris
Assomos curiosos que a endoidecem
De ir ver, emocionada,
Os milagres da Indústria em Gand ou Essen,
E a apoteose do século _ em Paris!
Não invejo, porém, os que se vão
Buscando, mar em fora,
De outras terras a esplêndida visão...
Fazem-me mal as multidões ruidosas
E eu procuro, nesta hora,
Cidades que se ocultam majestosas
Na tristeza solene do sertão.
Cidades ante as quais são como anãs
As Londres, extensíssimas
E as Babilônias, Bagdás pagãs;
Tão colossais, tão cheias de grandeza,
Nas construções amplíssimas,
Que as contemplando eu penso na rudeza
De uma raça já morta de titãs.
E abandonadas... no entretanto, quem
As observa, no extremo
Dos horizontes afastados, tem
O religioso espanto e o extraordinário
Êxtase supremo
De um muçulmano austero ou de um templário
Diante de Meca ou de Jerusalém.
Divisa então soberbos coliseus,
Templos de forma rara _
Amplas mesquitas, vastos mausoléus,
E góticas igrejas tão imensas
E tão frágeis que para
Compreendê-las, cremo-las suspensas
Por ignota atração vinda dos céus.
No entanto, atulmutuaram multidões
Dentro delas outrora;
E ao ritmo de esplêndidas canções
Levantou-lhes os muros triunfantes
Heróica e sonhadora,
A coorte febril dos Bandeirantes,
Nas marchas triunfais pelos sertões.
Mas passaram _ e o sol que tremeu
A seus passos, deserto,
Revolto e infinito, e como um mausoléu
Imenso que pelo sertão se estende...
Calcando-o, sentis perto,
Um deslizar sinistro de duende:
O fantasma de um povo que morreu.
Viajantes que rápidos passais
Pelas serras de Minas,
Vindos de fulgurantes capitais,
Evitai as necrópoles sagradas,
Passai longe das ruínas,
Passai longe das Catas desoladas
Cheias de sombra, de tristeza e paz...
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Euclidianas 3
Estala na mudez universal das coisas
estrídulo tropel de cascos sobre pedras
e naquela assonância ilhada no silêncio
o cataclismo irrompe arrebatadamente.
O doer infernal das folhas urticantes
corta a região maninha das caatingas
fazendo vacilar a marcha dos exércitos
sob uma irradiação de golpes e de tiros.
Por fim tudo se esgota e a situação não muda,
lembrando um bracejar imenso, de tortura,
em longo apelo triste, que parece um choro.
Num prodigalizar inútil de bravura
desaparecem sob as formações calcáreas
as linhas essenciais do crime e da loucura.
(Augusto de Campos/ Euclides da Cunha)
Euclidianas 2
Página vazia (Euclides da Cunha)
Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,
Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que possa figurar dignamente
Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.
E quando, com fidalga gentileza,
Cedeste-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludi-vos, não previstes
Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: “Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes”?
Bahia – 14 de outubro de 1897
terça-feira, 30 de junho de 2009
Euclidianas
Soneto Antigo
Morrem os mundos... silenciosa, escura,
Eterna noite os cinge e, mudas, frias
– Nas fulgurantes solidões da altura –
Se erguem assim necrópoles sombrias.
No entanto, a nós parece que perdura
Neles a Vida – envolta das magias
Esplêndidas da luz que, alto, fulgura
Lhes animando as órbitas vazias...
Meus ideais – extinta claridade!
Mortos rompeis, fantásticos e insanos,
Da minh’alma a revolta imensidade,
E sois ainda todos os enganos
E toda a luz e toda a mocidade
– Desta velhice trágica aos vinte anos.
S. Paulo – 1889.
Euclides Cunha