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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Grande critico literário:

É preciso situar Euclides no seu tempo

De Wilson Martins, Jornal do Brasil

RIO - Concordando com o general Mitre, Joaquim Nabuco pensava que, como a literatura hispano-americana, a nossa ainda não havia produzido o seu livro nacional. É possível que, como a francesa, e mais do que a francesa, a brasileira, para lembrar uma distinção conhecida, seja o contrário de uma literatura monântica, isto é, não pode ser representada exclusivamente por um único escritor ou uma obra única; contudo, e por singularidade, um dos nossos livros nacionais mais indiscutíveis estava sendo obscuramente elaborado no instante mesmo em que Nabuco falava, e seria gerado pelo trauma profundo de Canudos, o de Euclides da Cunha (Revista Brasileira, fase VII; abril-maio-junho, 2009, ano XV, nº19).

Não é temerário supor que ele haja encontrado a sua tese em outra Revista Brasileira, a de novembro de 1897, formulada por antecipação no artigo de Nina Rodrigues “A loucura epidêmica de Canudos”, mais tarde incluído no volume As coletividades anormais. O cientista baiano, como se sabe, encarava a “psicose progressiva” de Antônio Conselheiro como um reflexo das condições sociológicas do meio em que se organizou, e os acontecimentos de Canudos como um exemplo típico de epidemia vesânica. O monarquismo de Antônio Conselheiro e seus jagunços era apenas o sentimento político correspondente à idade mental e sociológica das populações sertanejas. A população sertaneja, escreveu, “é e será monarquista por muito tempo, porque no estado inferior da evolução social em que se acha, falece-lhe a precisa capacidade mental para compreender e aceitar a substituição do representante concreto do poder pela abstração que ele encarna – pela lei. Ele carece instintivamente de um rei, de um chefe, de um homem que a dirija, que a conduza, e por muito tempo ainda o presidente da República, os presidentes dos Estados, os chefes políticos locais serão o seu rei, como na sua inferioridade religiosa, o sacerdote e as imagens continuam a ser os seus deuses. Serão monarquistas como são fetichistas, menos por ignorância, do que por um desenvolvimento intelectual, ético e religioso, insuficiente e incompleto”.

Mas, como se diz, é preciso situar Euclides da Cunha no seu tempo: do ponto de vista estilístico e ideológico, há uma linha sensível de unidade entre o ano intelectual de 1888 e o de 1912: as histórias literárias falam-nos de parnasianismo e de naturalismo, de impressionismo, como se fossem princípios antagônicos e irreconciliáveis; ora, é fácil perceber que, do parnasianismo de Olavo Bilac à escrita artista de Raul Pompéia vai apenas um passo, já que ambos se deixaram conduzir pelo princípio implícito da correção linguística e da expressividade; outro passo natural, se não inevitável, conduz da escrita artística ao estilo de caracteres barrocos, isto é, a Rui Barbosa, a Coelho Neto, a Euclides da Cunha. Estes, por sua vez, remetem num movimento de retorno, aos mesmos postulados de correção linguística e de riqueza vocabular que identificavam os primeiros; assim, geralmente ignorado pelos historiadores e críticos quando sucumbem à concepção linear sucessiva dos movimentos literários, há um contínuo jogo de lançadeiras dentro deste bloco estilístico. Quando louvamos a natureza escultórica do estilo de Euclides da Cunha (lugar-comum da literatura crítica), o que fazemos é aproximá-lo de Olavo Bilac, com quem, à primeira vista, nada terá de comum; e quando menosprezamos Rui Barbosa e Coelho Neto, parecemos não perceber a contradição que isso representa com os louvores jamais denegados ao estilo de Euclides da Cunha.

Junte-se a isso, pelo menos no que se refere a Euclides da Cunha, a Raul Pompéia, a Sílvio Romero, a Graça Aranha e a Augusto dos Anjos o cientificismo característico desses finais no século 20. Mesmo a correção linguística, com a sua superabundância barroca, e o nacionalismo, com os seus aspectos mais limitativos ou empobrecedores, eram manifestações indiretas do espírito científico. Tal cientificismo tem despertado, igualmente, algumas críticas fáceis, pois nos recusamos a compreender que, onde vemos, com prazer de alguma forma farisaico, o cientificismo, estava, na verdade, a ciência da época. Como observava Sérgio Milliet, com grande compreensão: “Euclides da Cunha teve a serviço de sua observação aguda quase todos os conhecimentos de sua época. Foi ainda um precursor desses estudos entre nós. ( ...). Suas teses continuam em debate, e esse é o maior elogio que lhe pode ser feito do ponto de vista sociológico, o que já não é pouco, pois o valor de uma obra de ciência se mede mais pela fecundidade de suas sugestões que pelo dogmatismo de suas certezas”.

in: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/08/14/e140821319.asp

Novo romance sobre Os Sertões


Ideias antecipa trecho do lançamento 'O pêndulo de Euclides'

Jornal do Brasil


RIO - Além de Os sertões – que nasceu de um relato jornalístico – a Guerra de Canudos gerou também algumas obras de ficção, entre elas o caudaloso romance Guerra do fim do mundo, considerado pelo autor Mario Vargas Llosa um dos mais bem realizados que já cometeu. Menos conhecida, mas nem por isso indigna de interesse, é a novela A casca da serpente, de José J, Veiga, publicada em 1989 – e que merece reedição por estar há muito tempo desaparecida das livrarias.


Agora é a vez de o escritor baiano Aleilton Fonseca mergulhar no tema, com o romance O pêndulo de Euclides, que a editora Bertrand Brasil manda para as livrarias na próxima semana.
O Ideias apresenta abaixo, com exclusividade, os dois primeiros capítulos da obra. Trata-se do relato de uma viagem de três amigos (um professor baiano, um poeta carioca e um brasilianista francês) à cidade de Canudos atual para uma visita ao campo da guerra onde existiu o Arraial de Belo Monte, fundado e liderado por Antônio Conselheiro. Durante a viagem, eles debatem temas e razões do conflito, e algumas das ideias de Euclides da Cunha. A foto que ilustra o texto, de Evandro Teixeira, mostra a cidade de Rosário, cenário das batalhas. A igrejinha branca ao fundo foi construída pelo próprio Conselheiro.

Trecho do livro:

A Guerra de Canudos foi o conflito mais trágico e sangrento do Brasil. Era o que mais se repetia nas palestras do seminário, que reunia professores, estudantes e pesquisadores. A universidade parecia estar em festa, com gente se acotovelando nos corredores e auditórios. A última conferência concluía o evento com chave de ouro. Eu, atento, nem sempre estava de acordo com o que ouvia.

O conferencista encerrou suas palavras dizendo em tom de máxima que, mais de 100 anos depois, a guerra era um tema exaurido. Nada de novo havia a dizer ou acrescentar. Tudo estava dito, registrado, lido e analisado.

Ergui o braço para questionar, porém meu gesto não foi atendido. Era a conferência final do seminário e não haveria debates. A plateia já se levantava apressada. Continuei no meu lugar, enquanto as pessoas deixavam o auditório. Lá fora começava o alarido do coquetel de encerramento. Fiquei só e pensativo.

Veio-me à tona uma ideia que desde alguns anos me martelava a cabeça. Há tempos eu planejava ir até a região de Canudos para conhecer o local da guerra. Queria conversar com as pessoas, anotar suas impressões, elaborar um texto. Pretendia recolher resquícios da memória do conflito a partir de depoimentos dos descendentes dos sertanejos.

Meu sonho era escrever um livro. Eu queria fazer um ensaio, uma entrevista, ou mesmo um romance, em que uma voz sertaneja narrasse os eventos da guerra. Seria um narrador canudense que relatasse – de dentro – as quatro batalhas, ou seja, os quatro fogos da guerra, conforme denominava Antônio Conselheiro.

Ao final do evento, saí da universidade pensando seriamente no assunto, a caminho da pousada onde estava hospedado no centro da cidade.

Ao chegar fui direto para o apartamento. Fazia muito calor. Depois de um banho, tomei uma cerveja para refrescar a garganta, saboreando cada gole. Fiquei matutando. Certamente o conferencista quis dizer que a história de Canudos está devidamente assentada nos livros, nos ensaios, nos romances, na poesia, no cordel, nas fotos e nos jornais da época. Um acervo que dá conta dos fatos e de suas consequências históricas e sociais.

Mas tudo isso esgota mesmo a história da guerra? Nada mais há além do silêncio? Nada mais ecoa nos campos calcinados da memória que subjazem nas águas? Só nos resta interpretar as marcas do passado? De certa forma, sim. De alguma maneira, não.

É certo que textos, objetos e documentos falam por si. E as vozes do sertão? O que elas têm a dizer? Lembrei de uma célebre frase do escritor francês André Gide, que nos ensina: “Tudo já está dito; mas, como ninguém escuta, é preciso sempre recomeçar”.

O conferencista fora enfático ao afirmar: “Canudos é um tema exaurido”. Discordei na hora. Não, não é, pensei comigo mesmo. E de novo me animei.

Tudo isso açulou o meu antigo desejo de percorrer o sertão de Antônio Conselheiro. Eu podia visitar o local da guerra e depois escrever o livro. Peguei o mapa da região, anotei as informações gerais na agenda e preparei a mala de viagem. Eu precisava conhecer Canudos.

DESCOBERTA – 2º CAPÍTULO

As imagens de Canudos e de Antônio Conselheiro entraram cedo em minha vida. E não foi através da escola. Nas aulas de história, só os velhos temas. Ensinavam-me a repetir datas e fatos e a admirar as personagens oficiais. Pior: aos oito anos de idade fui obrigado a me perfilar junto com os colegas no pátio da escola, no longínquo dia 31 de março de 1968, para cantar o Hino Nacional em louvor à ditadura militar de então. Obrigada a cumprir ordens, a escola traía com isso a inocência de minha idade.

Nunca me contaram nada sobre Canudos.

Mas eu descobri.

Aos 12 anos ganhei de presente de meus pais uma coleção de dicionários da antiga Editora Globo, em seis volumes de capa grossa e cor azul. Cada um era dedicado a uma área do saber. Passei a ler a esmo os verbetes do Dicionário de História do Brasil, fixando-me naqueles que me pareciam mais interessantes.

Canudos. Esse verbete despertou minha atenção.

Eu ia lendo, e os fatos narrados me fascinavam e excitavam a minha imaginação. Ali eu aprendia a história de Antônio Conselheiro e do Arraial do Belo Monte.

Ademais, a minha avó Laudilina nasceu em Bom Conselho, nas redondezas de Canudos, há cerca de 90 anos. Certamente ela descende de alguma família sertaneja que sobrou viva nos arredores da cidadela arruinada. Eu imaginava um dia investigar o fato, quem sabe desencavar um parente perdido. Como afluente de um Vaza-Barris vermelho, decerto em meu corpo também corre algum sangue conselheirista.

Certa vez perguntei à minha avó o que ela sabia sobre a guerra dos sertanejos. E ela, com paciência e boa vontade, puxou pela memória e tentou me explicar:

– Ah, meu neto... De pequena, eu me lembro que falavam sobre o Conselheiro. Diziam que era um homem santo que havia lutado muito pelo povo do sertão. Mas contavam isso à boca pequena, com medo da polícia. Quem falasse a favor do beato podia até ser preso. As pessoas tinham muita cautela de tocar no assunto. Escondiam e até negavam o parentesco com os infelizes fiéis de Canudos.

– E por que elas faziam isso, vó?

– Ora, porque tinham medo da polícia! Muitas diziam que os soldados iam retornar um dia pra atirar em todos, tocar fogo nas casas e degolar o povo que havia restado no sertão. Com isso, muita gente se amofinava, ficava tudo quieta, acuada, nas brenhas dos lugares ermos. É só dessa cisma que eu me lembro um pouco.

E resumiu, baixando a voz, num tom de compaixão:

– Aquela guerra foi uma grande injustiça.

Depois de ouvir as palavras da avó Laudilina, eu corria de volta ao dicionário. E ficava surpreso e impressionado com os personagens que realmente viveram, lutaram e morreram nos tempos passados.

Ali se narravam fatos que me pareciam semelhantes às antigas histórias que eu tanto ouvira contar na infância. No entanto, eu sabia a diferença: aquele livro trazia eventos reais, vividos e registrados.

Canudos entrava, assim, em meu universo de saberes; e já fazia parte de minha vida.


in: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/08/14/e140821317.asp